Até 18 de dezembro de 2024, o real brasileiro se destacou de forma negativa ao se tornar a moeda com pior desempenho em relação ao dólar americano entre os países do G20. A desvalorização acumulada de 21,44% até essa data reflete uma combinação de fatores domésticos e internacionais que pressionaram a economia brasileira e afetaram a confiança de investidores.
Cenário Externo: Expectativas com a Política Fiscal dos EUA
No cenário internacional, os Estados Unidos iniciaram cortes em suas taxas de juros em setembro, mas a curva de juros futuros subiu significativamente devido às expectativas em torno da política fiscal do presidente eleito Donald Trump, que ainda não assumiu o cargo. Trump prometeu uma política fiscal expansionista e inflacionista, com aumento de gastos públicos e redução de impostos. Isso elevou as expectativas de maior endividamento e inflação nos EUA, tornando os títulos do Tesouro americano mais atraentes para os investidores.
Hoje (18 de dezembro), o Federal Reserve (Fed) anunciou um corte de 0,25 ponto percentual nas taxas de juros dos Estados Unidos, que agora estão na faixa de 4,25% a 4,50%. Esse corte já era amplamente esperado pelo mercado, em meio ao aumento das expectativas para a inflação norte-americana com a eleição de Trump.
Esse movimento levou a uma forte migração de capitais para os Estados Unidos, reduzindo o fluxo de recursos para economias emergentes, como o Brasil. A menor entrada de dólares no país contribuiu para a depreciação do real e de outras moedas emergentes.
Cenário Doméstico: Risco Fiscal e Incertezas
Embora o contexto global tenha influenciado, o principal fator por trás da desvalorização do real foi o aumento do risco fiscal doméstico. O governo brasileiro enfrentou dificuldades em implementar medidas para equilibrar as contas públicas, gerando preocupações sobre a sustentabilidade fiscal.
Entre as ações mais controversas, destacaram-se:
- Plano Fiscal Insuficiente: O governo anunciou um corte de R$ 70 bilhões nos gastos públicos para os próximos dois anos, mas o mercado avaliou que o pacote era insuficiente para reduzir a dívida pública em relação ao PIB.
- Mudanças no Imposto de Renda: A proposta de elevar a isenção do Imposto de Renda para pessoas que ganham até R$ 5 mil gerou receios sobre como o governo financiaria a renúncia fiscal, aumentando as dúvidas sobre a retidão fiscal.
- Dependência de Emissão de Títulos Públicos: Quando o governo precisa financiar déficits, ele recorre ao mercado interno, emitindo títulos públicos para captar recursos. Para atrair investidores dispostos a comprar esses títulos, o governo precisa oferecer taxas de juros mais altas, o que eleva o custo da dívida pública, ou seja, o quanto o governo paga de juros sobre os empréstimos que toma. Esse cenário de maior risco fiscal faz com que muitos poupadores e investidores migrem para ativos mais seguros, como o dólar, contribuindo ainda mais para a depreciação cambial.
Essa combinação de fatores gerou incertezas entre poupadores e investidores, que buscaram proteção em ativos mais seguros, como o dólar. Essa fuga de capitais intensificou a depreciação do real e alimentou um ciclo de deterioração na confiança do mercado.
Impactos Econômicos
A desvalorização do real teve reflexos diretos na economia brasileira, especialmente na inflação. Como o Brasil é altamente dependente de importações de insumos e commodities precificadas em dólar, a alta do câmbio aumentou os custos de produção e pressionou os preços ao consumidor.
Para conter a inflação, o Banco Central ajustou sua política monetária na última reunião do Copom, realizada em 11 de dezembro, elevando a taxa Selic para 12,25% ao ano. Essa decisão intensificou os desafios para o crescimento econômico, já que juros elevados encarecem o crédito e desestimulam os investimentos.
Perspectiva geral
A desvalorização do real em 2024 reflete os desafios enfrentados pela economia brasileira em um cenário de turbulências globais e domésticas. No plano internacional, a perspectiva de mudanças na política fiscal dos Estados Unidos gerou um fluxo de capitais para o mercado americano, prejudicando economias emergentes. Já no âmbito interno, a falta de controle fiscal e as decisões econômicas do governo aumentaram a percepção de risco entre investidores, pressionando ainda mais a moeda nacional.
Os impactos dessa desvalorização vão além do câmbio. O aumento dos custos de importação, combinado com uma inflação crescente e a elevação da taxa de juros, compromete o poder de compra das famílias e dificulta a retomada econômica. Esse episódio reforça a importância de políticas econômicas que busquem a sustentabilidade fiscal e inspirem confiança, tanto no mercado doméstico quanto no internacional.
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