Com crescimento de 53% em relação aos três meses finais de 2020, o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) reportado pela Usiminas (USIM5) no quarto trimestre de 2021, de R$ 1,8 bilhão, decepcionou e muito as expectativas do mercado, devido principalmente ao aumento no custo de produção do aço e a preços de minério de ferro menores do que o esperado. O resultado tem peso sobre as ações da companhia, que figuram entre as maiores quedas do Ibovespa nesta sexta-feira (11).
Em relatório distribuído a clientes, a equipe de analistas do Goldman Sachs afirmou que esperava um Ebitda 33% mais alto para o trimestre. O número também ficou 16% abaixo do consenso do mercado compilado pela Bloomberg, segundo informações do banco. O BTG, por sua vez, afirmou que o Ebitda ficou em linha com suas expectativas.
A alta nos preços do carvão e uma menor diluição de custos fixos teve impacto sobre os custos de produção do aço da Usiminas, segundo os analistas, que ficaram 8% acima do esperado. O preço realizado do aço caiu 3% em relação ao trimestre anterior, pois a exportação, que costuma ter preços menores, correspondeu a uma fatia maior do mix de receitas.
Outro fator que contribuiu para o Ebitda abaixo do projetado foi o valor pelo qual a companhia conseguiu vender seu minério de ferro – 21% abaixo do que o Goldman esperava -, com pressões maiores do que as esperadas devido à qualidade. O Ebitda da divisão ficou 47% menor que a projeção do Goldman, mesmo que as vendas tenham vindo em linha com as expectativas e com as projeções da própria siderúrgica.
Fluxo de caixa livre surpreende
Por outro lado, alguns pontos chamaram a atenção do mercado pelo lado positivo, com destaque para o fluxo de caixa livre, de R$ 1,1 bilhão, o que o BTG vê com muito bons olhos. O banco menciona ainda o baixo endividamento da companhia, que opera com “robusta posição de caixa”.
Outro ponto que chamou a atenção do Goldman foi o fato de a empresa ter conseguido manter os volumes de vendas de aço e minério de ferro dentro do que projetava para o período, apesar dos desafios na cadeia de produção e de um declínio na demanda doméstica.
Guidance
Considerando que o custo do carvão deva atingir os resultados com mais força nos próximos meses, o Goldman espera que os lucros do negócio de aço sejam ainda mais fracos no primeiro trimestre deste ano. No entanto, o banco vê com bons olhos o fato de a Usiminas ter elevado suas projeções de venda de aço para o trimestre, para o intervalo entre 1,1 e 1,2 milhão de toneladas (Mt).
No guidance para 2022, a Usiminas projeta um Capex total de R$ 2,05 bilhões, 21% acima da projeção do Goldman. Em volume de vendas, a expectativa da companhia para a unidade de minério de ferro está entre 8,5 e 9 Mt, enquanto o Goldman espera 9,1 Mt. Para o BTG, ambas as projeções estão em linha com suas estimativas anteriores.
Para 2022, o Goldman espera que o lucro seja beneficiado por preços sólidos do minério de ferro, que o banco acredita que devam permanecer na média de US$ 125 por tonelada, e de preços de aço mais altos para a indústria automotiva, podendo compensar o ambiente de inflação elevada, riscos de demanda no Brasil e dos preços globais de aço.
Assim, a estimativa do Goldman é que o Ebitda da companhia fique em R$ 5,8 bilhões em 2022, enquanto o consenso do mercado, compilado pela Bloomberg, é de R$ 7,4 bilhões.
Expectativas para a ação
O Goldman e o BTG mantêm a recomendação de compra para o papel, que está sendo negociado com desconto tanto em relação a seus pares quanto a seus níveis históricos. O preço-alvo do Goldman é de R$ 20, o que representa alta de 19% em relação ao preço do fechamento de quinta-feira (10), de R$ 16,78, enquanto o BTG espera a ação a R$ 25 – upside de 49%.
De acordo com dados da Refinitiv disponíveis na plataforma TradeMap, oito das 12 casas de análise consultadas recomendam compra para a ação, enquanto quatro indicam a manutenção do ativo em carteira. A mediana dos preços-alvo dos analistas é de R$ 21, alta de 25%.
Por volta das 17h30 desta sexta-feira, a ação era negociada em baixa de 7,27%, na segunda posição entre as maiores quedas do Ibovespa, a R$ 15,56.
Na visão do BTG, o mercado agora estará de olho no momentum operacional de 2022, e na habilidade da companhia de continuar implementando sua estratégia de precificação, especialmente no segmento automotivo – o que, na visão do banco, deve superar as expectativas do mercado.
O banco acredita que o mercado está precificando um Ebitda de R$ 4 bilhões a R$ 5 bilhões, o que significa que os preços precisariam cair entre 30% e 40%, com perdas significativas de volume, o que avalia ser improvável.
“Com as renegociações de contratos automotivos resultando em uma alta de preço de cerca de 40% para o segmento de aço, vemos upside em relação às expectativas do mercado para a Usiminas em 2022, o que deve levar a uma forte performance da ação”, diz o BTG.
O Goldman pontua, no entanto, alguns fatores que podem fazer com que a empresa tenha uma performance pior do que a esperada: um aumento na produção de aço da China, que pode pressionar os preços globais; a melhora no cenário macroeconômico brasileiro, valorizando o real contra o dólar; e a desaceleração da economia brasileira, causando redução de demanda.