Produção de carros tem melhor trimestre de 2022, mas juros altos acendem alerta, diz Anfavea

Montadoras entregaram 665 mil unidades no período, alta de 11,6% em comparação aos três meses anteriores

Foto: Shutterstock/Jasen Wright

A produção de carros no terceiro trimestre atingiu o melhor resultado para o período em 2022, a despeito da manutenção da crise com a entrega de semicondutores no país. Mas o setor está em alerta, pois o aumento do endividamento das famílias e os gargalos na restrição de crédito por conta dos juros elevados podem prejudicar os resultados futuros.

Esta foi a avaliação do presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Autoveículos), Márcio de Lima Leite, durante apresentação na manhã desta sexta-feira (7) dos números da entidade em setembro.

Segundo dados do Banco Central, até julho, o endividamento das famílias medido como a proporção das dívidas em relação à renda foi de 53% no acumulado de 12 meses, enquanto a inadimplência chegou a 5,1% em agosto. Para Leite, os dados refletem a escalada da Selic em 13,75% ao ano – com sinalização de ficar estacionada nesse patamar até meados de 2023. Neste nível, a taxa de financiamento de automóveis fica ao redor de 27% ao ano.

“A taxa de juros tem sido extremamente dura com o nosso setor”, frisou Leite. “O endividamento é uma luz amarela que precisa ser acompanhada mês a mês para entendermos como esse comportamento vai impactar no mercado”.

A Anfavea, assim como os especialistas do mercado financeiro, prevê a redução da taxa de juros a partir de 2023. O presidente da associação voltou a chamar atenção para o distanciamento das curvas de vendas a prazo e à vista. Até agosto, as vendas à vista representavam 65% da indústria, enquanto as parceladas totalizaram 35%.

A expectativa é que o corte gradual dos juros leve as curvas para lados opostos. “Temos uma preponderância muito mais em vendas à vista que a prazo, o que não é normal para o setor de automóveis”, afirma Leite.

Apesar dos sinais de alerta, o presidente da Anfavea pontuou que a demanda reprimida por conta dos entraves na produção mitigou os efeitos dos juros no mercado doméstico. “Até o momento, isso não é uma trava para o segmento, mas é uma situação que poderá ocorrer no futuro”, diz.

Produção cai em setembro, mas sobe no trimestre

As montadoras entregaram em setembro 207,8 mil carros, queda de 12,7% em comparação ao recorde de do ano de 238 mil veículos em agosto. A redução foi justificada pelo calendário, visto que setembro teve três dias úteis a menos que o mês anterior.

Apesar do recuo, a indústria automobilística brasileira encerrou o terceiro trimestre com a produção de 665 mil unidades, 11,6% a mais que no trimestre anterior e o melhor resultado trimestral neste ano. “Houve um crescimento considerável com a redução de paralisações nas fábricas”, afirmou o presidente.

Vendas de carros crescem

O comércio de veículos também registrou dados positivos. A média de emplacamos diários foi de 9,2 mil carros em setembro, o melhor resultado para o ano. O fator calendário, porém, também impactou na redução das vendas totais em comparação a agosto, com queda de 7%, totalizando 194 mil unidades.

O desempenho abaixo do mês anterior não impediu que as vendas no trimestre atingissem a melhor marca para o período neste ano. Entre julho e setembro, o setor comercializou 585 mil unidades, alta de 14,2% ante os três meses anteriores.

Os dados renovaram as expectativas de o setor bater a meta de 2,1 milhões de carros comercializados até o fim deste ano. Para atingir o número, o mercado precisa vender cerca de 637 mil veículos por mês até dezembro. Citando o histórico de vendas acima desse patamar em 2019 e 2020, Leite afirma que o objetivo é viável.

“Se não houver nenhum imprevisto, devemos bater essa meta com certa tranquilidade, mas é um desafio que precisa ser acompanhado na ponta do lápis”, ressalta.

Exportações patinam

As exportações recuaram em setembro para 29 mil unidades, o pior resultado para o ano desde janeiro e 38,2% abaixo do registrado em agosto. O tombo impactou no resultado do trimestre, que fechou com o envio de 117 mil veículos, 15,2% a menos do que o acumulado entre abril e junho.

Segundo o presidente da Anfavea, as vendas internacionais foram impactadas por medidas de restrição à liberação de vendas para a Argentina, o principal destino das exportações de veículos do Brasil. Também pesaram significativamente as barreiras para venda à Colômbia após o setor atingir o limite de 50 mil unidades sem a cobrança de impostos de importação.

Além das questões comerciais, a Anfavea também destacou entraves para a logística marítima com o atraso de três navios que deveriam aportar no Brasil.

Investimentos internacionais em semicondutores

O Brasil avançou nas negociações com empresas do Japão para a implementação de fábricas de semicondutores no país. Em setembro, uma comitiva da Anfavea, da CNI (Confederação Nacional da Indústria) e de membros do governo brasileiro se encontrou com representantes do setor privado, como a Renesas Technology, e com políticos japoneses para a vinda de empresas ao país.

Segundo a Anfavea, o setor automotivo representa 12% do consumo de semicondutores em todo o mundo, enquanto o Brasil absorve uma fatia de 2,5% das peças. Leite afirmou que o ministro da Economia, Paulo Guedes, se comprometeu a editar uma medida provisória para incentivar a vinda de empresas do setor ao país.

“O Brasil importa cerca de US$ 13 bilhões em semicondutores, diretamente ou de componentes. O tamanho da nossa indústria, com esse número de exportação além do que já é fabricado aqui, justifica qualquer investimento”, destacou.

Além dos parceiros japoneses, o grupo também está em contato com representantes de Taiwan. Segundo Leite, o país já dispõe de estrutura para receber as fábricas. “Queremos ter aqui os melhores investimentos, não somente para o Brasil, mas também visando o mercado de exportação”, afirmou.

 

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