A normalização da circulação de pessoas na maior parte do mundo e a perda de fôlego das grandes economias forçaram o preço do frete marítimo para baixo ao longo de 2022, mas a problemática que tirou o sono de muitos importadores e exportadores ainda está longe do fim.
Dados da Freightos, plataforma que compila preços do frete marítimo global, mostram que atualmente custa cerca de US$ 3 mil para alugar um contêiner.
O valor é 69% menor que o observado em janeiro, quando estava perto de US$ 9,8 mil, mas ainda é praticamente o dobro do registrado no período pré-pandemia, em janeiro de 2020, de aproximadamente US$ 1,5 mil.
O encarecimento do frete ocorreu a partir de 2020 como reflexo de desarranjos econômicos em escala global causados pela pandemia da Covid-19 – em particular a paralisação de portos na China, o maior centro exportador de bens do mundo e ator central no comércio marítimo.
Em 2021, a alta nos preços acelerou, visto que as empresas de frete haviam reduzido a capacidade para enfrentar o cenário de crise, mas viram a demanda por transporte crescer conforme a vacinação contra a Covid-19 avançada e as economias voltavam à normalidade.
A queda nos preços só ganhou força no início deste ano, com a gradual normalização das atividades de frete e adaptação ao cenário de retomada econômica.
As empresas de transporte marítimo aumentaram a oferta de navios e outros insumos necessários para as viagens, como contêineres, mitigando o quadro de escassez que forçou o aumento das tarifas.
Aluísio Sobreira, diretor da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil), destaca que as empresas que atuam no setor de fretes marítimos se viram obrigadas a reduzir os preços para continuarem competitivas.
“Os efeitos começaram a ser neutralizados no campo dos armadores. Eles colocaram novos navios, e dependem da sustentabilidade do mercado para cobrir esses investimentos”, explica. “Eles sentiram que não tinham como sustentar os preços naqueles patamares”.
Mais recentemente, a queda no preço dos fretes ganhou um reforço: a redução da demanda face ao agravamento da economia global.
A onda mundial de alta de juros para conter a disparada da inflação, sobretudo na Europa, colocou um freio na recuperação econômica, com efeito negativo sobre o consumo. Em efeito cadeia, essa perda de fôlego diminui a necessidade de os países importarem produtos.
“Houve uma retração de negócios entre a China e os Estados Unidos, e agora também com a Europa devido a esse momento econômico. Isso faz com que a demanda por comércio global caia e deixa os fretes em tendência de queda”, afirma Samara Reis, diretora estratégica do Grupo Serpa, que atua com logística doméstica e internacional.
Frete com futuro incerto
Especialistas em comércio internacional afirmam que ainda é precipitado esperar a normalização do setor.
A despeito de a China anunciar que afrouxará a política de “Covid Zero” – responsável pelo quase congelamento das atividades em portos do país no auge da pandemia -, o recente repique de casos da doença em diversas partes do globo pode levar à retomada de restrições.
Sobreira aponta ainda outros eventos que podem empurrar o valor do frete para cima, a exemplo da guerra na Ucrânia e do impulso dado pelo conflito ao preço dos combustíveis.
“Há expectativa pela queda dos preços, mas não tem nenhuma garantia que isso venha a ocorrer”, pontua.
Olhando para as próximas semanas, Reis afirma que a tendência para o preço do frete é de queda. O movimento, porém, pode se inverter em janeiro, às vésperas da comemoração do Ano Novo chinês, no dia 26.
Neste período, praticamente toda a indústria e demais atividades do país ficam suspensas por até três semanas devido às comemorações.
Olhando para o médio e longo prazo, a diretora do Grupo Serpa afirma que os caminhos ainda são muito divergentes. Se de um lado a baixa demanda pode levar os preços mais para baixos, a contaminação da inflação dos produtos pode dificultar essa queda.
Ela também destaca os incentivos do governo de Pequim para desvalorizar a própria moeda e estimular as exportações do país.
“É difícil definir um cenário tão complexo, com questões mercadológicas e políticas. Agora é um momento de transição, vai ser preciso olhar todos esses pontos para analisar quais terão mais peso no mercado”, explica.
Pouco impacto na inflação
A disparada do preço dos fretes marítimos no ano passado foi um dos motores para o fortalecimento da inflação ao redor do mundo. Além da falta de produtos devido à desorganização das cadeias produtivas, o encarecimento do transporte também foi sentido pelo consumidor final.
Neste cenário, os Estados Unidos atingiram picos de inflação não vistos em 40 anos – apesar de os dados indicarem que o pior já tenha ficado para trás. O índice de preços ao consumidor americano foi de 7,7% nos 12 meses encerrados em outubro, abaixo dos 8,2% registrados em setembro.
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A Europa vive uma situação mais difícil, com o preço dos produtos ainda em linha ascendente. Em outubro, o principal indicador de preço aos consumidores encerrou em 10,6%, ante 9,9% registrado no mês anterior.
Apesar do alívio dos transportes, Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, ressalta que o impacto do frete na variação de preços é secundário.
O principal motivo desse efeito pouco expressivo está no fato de o preço de aluguel dos contêineres ainda estar bem maior que no período anterior ao surgimento da Covid-19.
“Ainda está muito longe dos níveis pré-pandemia. Por mais que continue essa queda, é pouco provável que surta efeito na composição global”, explica.
90% das empresas brasileiras foram prejudicadas
Olhando para o cenário brasileiro, a disparada do preço dos fretes foi o principal problema para 90% das empresas com operações no comércio internacional, segundo levantamento da CNI (Confederação Nacional da Indústria) divulgado em outubro.
O alto custo dos transportes foi citado como o maior problema de 92% das exportadoras. Já entre as importadoras, o patamar sobe para 95%.
“O mundo ainda sente os efeitos da desorganização do transporte marítimo mundial, que sofreu uma reação em cadeia devido a fechamento de portos em importantes mercados, a consequente retenção de navios e de contêineres”, afirma Constanza Negri, analisa a gerente de Comércio e Integração Internacional da CNI.