Diferentemente do setor petrolífero, que foi bastante impulsionado pela alta da commodity na primeira metade do ano, levando consigo os papéis das empresas, o setor de papel e celulose vê um movimento inverso, com Suzano (SUZB3) e Klabin (KLBN11) apresentando queda no acumulado do ano de 24,2% e 23,7%, respectivamente, mesmo com a alta do preço da celulose.
No caso do petróleo, o preço foi fortemente impactado pela recuperação da demanda global entre 2021 e 2022 e o início da guerra na Ucrânia no começo deste ano. Esse movimento refletiu diretamente na ação preferencial da Petrobras (PETR4), que já valorizou 100% de um ano para cá.
Mas o que explica então esse movimento das ações das empresas de papel e celulose? Na visão do analista de commodities da Western Asset, Patrick Conrad, existe uma expectativa do mercado de recuo no preço da celulose, após ter subido substancialmente entre 2021 e o início deste ano.
No ano passado, por exemplo, a celulose de fibra curta importada pela China custava cerca de US$ 850 por tonelada. Neste ano, chegou a rondar a faixa dos US$ 980. Na mesma medida, a fibra longa passou de US$ 600 em 2021 para quase US$ 800 por tonelada neste ano.
Em relatório, os analistas do Bradesco BBI afirmam que o preço da commodity deve ficar em torno de US$ 810 em 2023 e recuar para US$ 640 por tonelada a partir de 2025.
“Ao contrário de outras commodities, como o minério, a celulose não teve queda de preço, pelo contrário, teve uma alta no começo do ano. Esse aumento afeta a expectativa do investidor de que em algum momento vai começar a cair”, diz Conrad.
Sobe e desce das commodities e a celulose no contexto mundial
O preço das commodities em geral — petróleo, celulose, minério – subiram na medida que a pandemia de Covid-19 se alastrou pelo mundo, o que colocou em choque as cadeias de abastecimento e acendeu uma dúvida de demanda e oferta do produto. O conflito na Ucrânia serviu para estender esse cenário para o início de 2022.
Contudo, a pandemia arrefeceu no mundo e agora há uma maior previsibilidade para a oferta e demanda das commodities.
No caso específico da celulose, Conrad afirma que a entrada de novos players no cenário global pode aumentar a oferta do produto no mundo, o que acabaria puxando os preços para baixo.
Como exemplo, o analista de commodities da Western Asset cita o projeto da Arauco no Chile para ofertar mais de 1 milhão de toneladas de celulose no mundo a partir de outubro, além da iniciativa da papeleira finlandesa UPM de uma planta no Uruguai, com capacidade para produzir mais de 2 milhões de toneladas, que deve ser finalizada no primeiro trimestre de 2023.
Segundo Conrad, os investidores geralmente não gostam de investir numa commodity que os preços estão caindo, uma vez que não dá para saber no patamar que vai se acomodar.
Diante disso, para Suzano e Klabin, especificamente, o cenário ainda é incerto. Isso porque elas atuam, principalmente, com celulose de fibra curta, aquela utilizada para a produção de papel higiênico. A fibra longa, por sua vez, é utilizada para embalagens porque é mais resistente.
E o dilema do preço está justamente aí. A celulose de fibra longa passou uma queda no preço no começo de 2022, enquanto a fibra curta ainda não passou por esse ciclo. Nesse imbróglio, a Klabin pode se sair melhor do que a Suzano.
Para o líder da área de análise da corretora Warren, Frederico Nobre, a Klabin é mais resiliente mesmo que a commodity caia bastante pela diversificação de atuação, já que sua exposição é maior no mercado doméstico, onde atua fortemente no segmento de embalagens.
Diversificação também é o ponto positivo da Irani (RANI3), small cap do setor. Para Nobre, a companhia é sua preferência no setor pela “posição financeira saudável e sem dívidas”. “A Irani tem pagado bons dividendos e fazendo recompra de ações, além de um projeto de crescimento interessante”.
Em contrapartida às quedas de Klabin e Suzano, os papéis da Irani subiram 20,74% de janeiro até agora.
Nem tudo é negativo
Apesar da incerteza para o futuro, as duas gigantes brasileiras do setor de papel e celulose apresentaram bons resultados no segundo trimestre, refletindo preços maiores para a celulose e o aumento no volume de vendas, que deve continuar assim até o final de 2022.
Klabin e Suzano foram particularmente beneficiadas por um cenário de restrição à oferta da commodity tanto por gargalos logísticos quanto por dificuldades na Europa, onde a escassez de energia elétrica atrapalhou a produção e os baixos níveis de estoque levaram os compradores a buscar fornecedores de celulose fora da região.
No período, a receita da Suzano atingiu R$ 11,5 bilhões, avanço de 17% em comparação com o mesmo período de 2021, acompanhando o aumento no preço médio da celulose vendida no mercado externo de 15%, para US$ 732 por tonelada. A celulose representa 82% da receita total da empresa.
No caso da Klabin, por sua vez, a receita líquida cresceu 24% no segundo trimestre, para R$ 5 bilhões, refletindo o maior volume de vendas de celulose (20%) e o de papéis (43%) em comparação com mesmo intervalo do ano anterior, além de maiores preços para ambos os produtos.
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No curtíssimo prazo, ou seja, no terceiro trimestre, a expectativa é que os preços da commodity continuem altos por conta de reajustes recentes.
“O resultado do terceiro e do quarto trimestre ainda deve ser forte. O setor sofreu muita inflação de custos, agora vê essa inflação acalmar e os preços muito altos ainda. A questão é quando o preço vai se ajustar para baixo”, analisa Conrad.