A inadimplência – que volta e meia gera preocupação do mercado, principalmente em cenário de juro alto – parece ser o tema do momento quando o assunto é banco. No primeiro trimestre do ano, o indicador mostrou sinais de aceleração em todas as instituições que divulgaram seus resultados até agora – e não deve parar por aí.
No auge da pandemia de Covid-19, o tema também foi motivo de discussão nos arredores da Faria Lima (avenida em São Paulo que concentra a maior parte do mercado financeiro). Porém, naquele momento, a inadimplência “foi dividida” entre os bancos e o governo, uma vez que o Ministério da Economia criou diversos programas para ajudar na renda da população.
Desta vez, a “conta” não será dividida e o aumento da inadimplência dos bancos nos primeiros três meses do ano deverá ser mais pesada nos próximos resultados financeiros, podendo, inclusive, superar os patamares pré-pandemia, segundo analistas consultados pela Agência TradeMap.
Em um cenário de alta da inflação, a população começa a ter menor disponibilidade de renda e, muitas vezes, precisa deixar de pagar algumas dívidas. “Vemos a inflação muito alta e a renda do consumidor sendo direcionada para coisas básicas, sobrando pouco para pagar parcela”, explica Paulo Weickert, co-gestor da Apex Capital. “Isso historicamente leva a inadimplência”, completa.
Dados publicados pelas empresas em seus balanços do primeiro trimestre indicam, ao comparar o primeiro trimestre deste ano com o mesmo período de 2019, antes da pandemia, que isso já vem se concretizando.
Ao longo da pandemia, os índices foram muito reduzidos devido às medidas adotadas pelo governo para auxiliar a população, como o Auxílio Brasil e subsídios a empréstimos para pequenas e médias empresas.
“Teve um efeito não recorrente que foi a ajuda do governo ao longo de 2020 e parte de 2021 em empréstimos a pequenas e médias empresas. O governo arcou com parte da inadimplência junto com os bancos”, diz Larissa Quaresma, analista da Empiricus.
Agora, com o fim destas medidas, a projeção de Weickert é que os níveis sigam aumentando até os patamares pré-pandemia. “Hoje o nosso cenário base é que a inadimplência volte para o patamar pré-pandemia. Mas é algo que iremos olhar todos os meses no Banco Central e todos os trimestres nos resultados dos bancos”, afirma o gestor, que espera que este patamar seja alcançado no segundo trimestre.
Quaresma, no entanto, vê esse dano um pouco mais para frente. “Acreditamos que deva passar um pouco dos níveis pré-pandemia, principalmente nos empréstimos a pessoa física”, diz a analista. “Eu não me assustaria se até o meio do ano que vem os índices de inadimplência estivessem mais altos do que antes da pandemia”.
Empresa | Inadimplência +90 1º trimestre 2019 |
Inadimplência +90 1º trimestre 2020 |
Inadimplência +90 1º trimestre 2021 |
Inadimplência +90 1º trimestre 2022 |
Banco do Brasil (BBAS3) | 2,58% | 3,17% | 1,95% | 1,89% |
Bradesco (BBDC4) | 4,2% | 4,5% | 2,5% | 3,2% |
Itaú (ITUB4) | 3,02% | 3,1% | 2,3% | 2,6% |
Santander (SANB11) | 3,1% | 3,0% | 2,1% | 2,9% |
Fonte: Balanços das companhias, elaborado por Agência TradeMap |
Entre 15 e 90 dias, os índices de inadimplência das instituições financeiras vêm crescendo de maneira acelerada – e, na análise de Weickert, podem ser considerados uma prévia do que está por vir.
Empresa | Inad. 15 a 90 dias 1º trimestre 2019 |
Inad. 15 a 90 dias 1º trimestre 2020 |
Inad. 15 a 90 dias 1º trimestre 2021 |
Inad. 15 a 90 dias 1º trimestre 2022 |
Banco do Brasil | 3,17% | 5,38% | 3,83% | 3,67% |
Bradesco | 3,9% | 4,2% | 3,2% | 3,6% |
Itaú | 2,5% | 2,6% | 2,0% | 2,1% |
Santander | 1,8% | 1,6% | 3,6% | 4,2% |
Fonte: Balanços das companhias, elaborado por Agência TradeMap |
Alguns sofrem mais?
Um dos pontos que chama a atenção nos resultados do primeiro trimestre é a diferença no aumento da inadimplência entre os bancos, principalmente entre os números de Itaú (ITUB4) e Bradesco (BBDC4). Enquanto a inadimplência acima de 90 dias do Itaú cresceu 0,13 ponto percentual no período, na comparação com o mesmo período do ano passado, a inadimplência do Bradesco teve expansão de 0,7 p.p. na mesma base de comparação.
Segundo Weickert, uma das explicações para isso, é que o Itaú pode ter sido mais conservador do que seus pares em algum momento. Além disso, o gestor menciona que as diferenças entre o perfil de clientes dos bancos também pesam sobre o nível de inadimplência.
Na visão do co-gestor da Apex Capital, esse cenário pode se perpetuar. “Podemos estar vendo um cenário em que a performance dos bancos com relação à inadimplência deva continuar sendo diferente nos próximos trimestres”, comenta.
A equipe de analistas do UBS-BB, por sua vez, acredita que as taxas de inadimplência dos dois bancos devem convergir para níveis mais semelhantes nos próximos trimestres. “Nossa análise mostra que as taxas de inadimplência (NPL) dos bancos têm uma forte correlação ao longo do tempo, sugerindo que a diferença deve ser reduzida nos próximos trimestres”, escreveram os analistas em relatório distribuído em 9 de maio.
As justificativas do UBS-BB para esta conclusão são a análise do período entre 2009 e 2022, que mostra correlação entre as taxas ao longo do tempo; as projeções de deterioração de crédito dos dois bancos para 2022, que são semelhantes, e o mix de produtos na carteira de crédito dos dois bancos, que têm diferenças pequenas.
Ruim para os bancões, pior para os digitais e fintechs
Os bancos tradicionais não são os únicos a sofrer com o aumento da inadimplência, tanto em atrasos de pagamentos acima de 90 dias quanto em dívidas em atraso de 15 a 90 dias.
Empresa | Inadimplência +90 1º trimestre 2019 |
Inadimplência +90 1º trimestre 2020 |
Inadimplência +90 1º trimestre 2021 |
Inadimplência +90 1º trimestre 2022 |
Banco Inter (BIDI11) | 4,3% | 4,6% | 2,6% | 3,3% |
Banco Pan (BPAN4) | 5,3% | 5,7% | 5% | 6,8% |
Nubank (NUBR33)* | – | – | 2,7% | 4,2% |
Fonte: Balanços das empresas, elaborado por Agência TradeMap *Por ainda não ter capital aberto, não há dados sobre o Nubank nos primeiros trimestres de 2019 e 2020 |
Assim como os bancões, os bancos digitais e fintechs também vão seguir sendo impactados, com diferenças entre eles. “O que vai definir qual fintech vai subir mais ou menos é muito o mix de produtos que cada uma atua. Quanto mais arriscado o crédito, maior a inadimplência esperada”, explica o co-gestor daApex Capital.
As fintechs têm a particularidade de, na maioria das vezes, terem a maior parte de suas carteiras em empréstimos a pessoa física, como cartões de crédito e empréstimos pessoais. Além de acreditar que essa linha deva ter um aumento de inadimplência maior, Quaresma acrescenta que esse tipo de empréstimo não tem garantia.
Além disso, o nível de provisionamento dos bancos digitais, medidos pelo índice de cobertura, costuma ser muito menor do que o dos bancos tradicionais, o que também traz preocupação. “Acreditamos que o cenário vai ser mais difícil para as fintechs e que elas terão que provisionar mais. O que precisamos observar é o nível de conservadorismo dessas provisões, porque elas costumam ter um provisionamento agressivo”, analisa Quaresma.
Empresa | Índice de cobertura 1º trimestre de 2021 |
Índice de cobertura 1º trimestre de 2022 |
Banco do Brasil | 328,2% | 297% |
Bradesco | 349,8% | 235,4% |
Itaú | 298% | 232% |
Santander | 283% | 215% |
Banco Inter | 86,33% | 92,54% |
Banco Pan* | – | – |
BTG Pactual | 238% | 166% |
Nubank | 274% | 229% |
Fonte: Balanços das companhias, elaborado por Agência TradeMap *O Banco Pan não disponibiliza os dados no balanço |
No entanto, as consequências desse cenário de aumento de inadimplência são diferentes para os bancos digitais. Para o co-gestor da Apex Capital, o provisionamento delas não preocupa tanto, uma vez que as carteiras de crédito são pequenas. “A inadimplência mais alta vai impactar o crescimento futuro. Os bancos precisam ficar mais conservadores, e eu imagino que isso deverá impactar a concessão”.
“Acho que esse cenário de inadimplência mais alta vai, claro, impactar a carteira atual. Mas a carteira é pequena comparado a quanto o mercado acredita que elas vão crescer. Hoje esperamos um crescimento de carteira bem menor do que há um tempo”, completa Weickert.