O Ibovespa acentuou o ritmo de queda depois de o presidente do banco central dos Estados Unidos, Jerome Powell, defender que os estímulos à economia do país sejam encerrados mais cedo do que se previa.
Powell disse que as injeções de dinheiro feitas pelo banco central norte-americano no sistema financeiro podem acabar “talvez alguns meses mais cedo” diante da força da economia e do nível de inflação elevado. Ele afirmou que esta hipótese será discutida pelo comitê de política monetária nos dias 14 e 15 de dezembro.
Depois das declarações, os investidores, que vinham acreditando em uma alta de juros mais moderada nos Estados Unidos após a descoberta da variante Ômicron, passaram a apostar com mais convicção nesta elevação a partir de junho do ano que vem – a probabilidade saiu de 58,6% ontem para 72,8% após a fala de Powell. Eles também passaram a ver uma chance maior de elevação das taxas a partir de maio de 2022, de 44,6%, ante 34,3% ontem, segundo dados compilados pelo CME Group.
Por volta das 13h50, o Ibovespa caía 2,24%, para 100.513 pontos. Antes da fala de Powell, o índice recuava 0,42%, a 102.387 pontos. As bolsas dos Estados Unidos também reagiram negativamente ao comentário, com os principais índices acionários recuando de 1,7% a 1,8% no mesmo horário.
Por que o mercado reagiu mal
Há anos o banco central dos Estados Unidos mantém os juros do país perto de zero e injeta recursos no sistema financeiro para garantir crédito barato aos consumidores e empresas. Isso reduziu as taxas de retorno de investimentos em renda fixa no país, e fez muitos investidores migrarem para outras aplicações mais arriscadas e rentáveis – como ações norte-americanas, commodities e ativos de países emergentes.
A reversão desta política do banco central norte-americano poderia inverter também este fluxo de investimentos, o que explica o efeito negativo da declaração de Powell tanto sobre as ações nos Estados Unidos quanto por aqui.
Ibovespa no vermelho desde cedo
Pela manhã, o Ibovespa já operava em baixa, acompanhando as bolsas internacionais, depois de o executivo-chefe da Moderna, Stephane Bancel, disse ao jornal Financial Times que pode levar meses até haver vacinas suficientes para a população contra a variante Ômicron do coronavírus. A Moderna é uma das empresas que fabricam estes imunizantes.
Ontem, as bolsas ao redor do mundo haviam subido justamente depois de a Moderna e outras companhias sugerirem que as vacinas atuais poderiam ser modificadas com facilidade para conter a Ômicron.
O receio dos investidores é de que a variante contorne a proteção das vacinas, seja mais transmissível e cause casos graves da covid-19. Neste cenário, a preocupação é de que governos fiquem mais inclinados a restringir a circulação de pessoas, com efeito negativo na economia. A própria Organização Mundial da Saúde, porém, ressalta que ainda há muitas dúvidas em relação à Ômicron e que é preciso mais tempo para avaliar a situação.