Gol (GOLL4): acordo com controladores ajuda, mas está longe de resolver problemas da empresa

Companhias aéreas enfrentam um dos períodos mais conturbados da história após pandemia de Covid-19

Foto: Shutterstock/Miguel Lagoa

O acordo da Abra Group, controladora da Gol (GOLL4), para alongar a dívida e ao mesmo tempo se transformar na maior credora da companhia aérea pode aliviar a situação delicada da Gol no curto prazo, mas o futuro da companhia ainda é tido como nebuloso pelo mercado.

As empresas de transporte aéreo enfrentam um dos períodos mais conturbados da sua história, depois de terem praticamente paralisado as atividades durante um ano e meio por causa da pandemia de Covid-19.

Como não puderam operar por um longo período, sofreram perda significativa de receita sem uma redução equiparável nas despesas. O resultado foi um aumento imenso das dívidas destas companhias.

A Gol, por exemplo, registrava uma dívida líquida de R$ 24,9 bilhões no terceiro trimestre do ano passado. O valor era 39,5% maior em relação a um ano antes e dramaticamente maior que o de R$ 9 bilhões registrado ao fim de 2019, antes da pandemia.

A relação entre a dívida líquida e o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), usada para medir a capacidade da companhia em quitar seus compromissos financeiros, também disparou neste intervalo, saindo de 2,4 vezes ao fim de 2019 para 9,1 vezes no terceiro trimestre do ano passado. 

Neste caso, quanto maior o índice, pior a situação da empresa. Como regra geral, um endividamento considerado saudável tende a ser equivalente a 3 vezes o Ebitda acumulado nos últimos 12 meses.  

Foi diante desse cenário que a Abra resolveu intervir e injetar centenas de milhões de dólares na Gol por meio da compra de títulos de dívida.

Ygor Bastos, analista do setor de transportes da Genial Investimentos, avalia que o processo de reestruturação da dívida que a Gol tem feito com a Abra é algo importante para a empresa conseguir “respirar sem aparelhos”.

O acordo da Gol e da Abra

Sob os termos do acordo, credores da Gol aceitaram vender títulos de dívida com vencimento em 2024, 2025 e 2026 para a Abra, que por sua vez entregará estes títulos à Gol (ou seja, cancelará esta dívida) em troca de outros títulos com vencimento em 2028.

Além disso, a Abras vai investir aproximadamente US$ 400 milhões na Gol comprando títulos de dívida, também com vencimento em 2028, que serão emitidos pela companhia aérea. O dinheiro será usado para modernização da frota e para o gerenciamento de obrigações financeiras.

Se tudo se concretizar da maneira esperada, deve acontecer uma liquidez importante para a Gol, já que ela conseguirá rolar sua dívida. Isso dá mais prazo para a companhia pagar suas dívidas”, comenta o analista da Genial.

Uma parte da dívida da Gol será representada por títulos de dívida conversíveis em ações (GOL ESSNs), que também poderão ser subscritos por acionistas da companhia..“Será assegurado aos acionistas detentores de ações preferenciais da Gol o direito de exercer seus respectivos direitos de preferência com relação à emissão dos bônus de subscrição, o que deverá ocorrer antes do potencial conversão das GOL ESSNs com vencimento em 2028”.

Na avaliação de André Fernandes, Head de Renda Variável e sócio A7 Capital, o plano anunciado vai conseguir pelo menos mais três anos de alívio no caixa e vai conseguir rolar as dívidas de curto prazo. “O cenário futuro, contudo, ainda é bem incerto, principalmente porque o fato relevante da empresa foi bem confuso, e a empresa não marcou nenhuma teleconferência para dar mais detalhes”, comentou.

Sergio Castro, analista CNPI do TradeMap, pensa parecido, e comenta que já que a maior parte das dívidas será para o longo prazo, e como o maior credor será o controlador, a situação “pode gerar um maior conforto para negociação futura dos prazos e juros”.

“O aporte de capital na Gol, vindo tanto do controlador quanto de outros detentores de títulos de dívida, também é favorável e indica otimismo em relação ao futuro da companhia, com reflexo na percepção do mercado”, diz Castro. 

Para além do alívio momentâneo causado pelo aporte da holding, Ygor Bastos, da Genial, destaca que os resultados da empresa entre dezembro e fevereiro, período sazonalmente de demanda aquecida e preços mais altos para as passagens aéreas, pode gerar um alívio momentâneo para a Gol.

Os riscos da Gol e o desempenho do papel

Ainda nos termos do acordo com o Abra, a emissão de bonds da Gol será garantida pela propriedade intelectual da marca Smiles, programa de fidelidade da empresa, avaliado em aproximadamente US$ 3,7 bilhões, além da relação a direitos de propriedade intelectual, marca e peças de reposição da empresa, que valem um total estimado em US$ 1,5 bilhão.

Os controladores da empresa, no entanto, não aliviaram tanto a barra da companhia. Em troca da folga no prazo de pagamento das dívidas, decidiram cobrar juros de 18% ao ano em dólares nos novos títulos de dívida, o que, na visão de Fernandes, da A7 Capital, deixa tudo mais complicado.

“É um montante alto, o que acaba deixando o mercado bem cético quanto à capacidade da empresa para conseguir gerar caixa suficiente e manter um nível de alavancagem saudável com esse custo de dívida”, afirma.

No dia 7 de fevereiro, quando a Gol anunciou o acordo de rolagem da dívida com o Abra Group, o preço das ações da empresa disparou mais de 6% no começo do pregão, mas recuou e fechou o dia com queda de 2,36%. Deste dia até o fechamento do dia 27, as ações da companhia aérea acumulam baixa de 24,87%.

No ano de 2023, a baixa é de 24,11%, e a julgar pelas expectativas do mercado, o papel pode não ter um bom desempenho em 2023. De nove recomendações do mercado apresentadas na plataforma do TradeMap para o papel, três são de compra, cinco são neutras e uma é de venda.. 

A Genial Investimentos é uma das corretoras que está com uma visão menos otimista. A casa possui um preço-alvo ao final de 2023 de R$ 5,40 para a ação da Gol, e indica a venda do papel.

Em relação ao acordo com a Abra, o analista da Genial espera que a operação e a injeção de capital ajudem a Gol a cumprir parte de suas obrigações nos próximos dois anos. Contudo, o custo de dívida elevado aliado ao momento delicado da empresa e à incerteza sobre o setor ainda deixa a Genial com uma visão negativa para o papel. 

 

Compartilhe:

Mais sobre:

Leia também:

Destaques econômicos – 02 de abril

Nesta quarta (02), o calendário econômico apresenta importantes atualizações que podem influenciar os mercados. Confira os principais eventos e suas possíveis repercussões:   04:00 –

Mais lidas da semana

Uma newsletter quinzenal e gratuita que te atualiza em 5 minutos sobre as principais notícias do mercado financeiro.