O banco central americano, o Federal Reserve (Fed), falhou em manter a política de estímulos por muito tempo e deveria acelerar a reversão dessas medidas para evitar um pouso forçado, com consequências maiores para a economia global, avalia o reconhecido economista Mohamed El-Erian.
O assessor econômico chefe da Allianz e presidente do conselho do hedge fund Gramercy Funds Management falou hoje, durante evento promovido pelo Bradesco.
El-Erian, que foi CEO da Pimco e conselheiro de Barack Obama (2012-2017), tem defendido que o atraso do Federal Reserve em reverter a política de estímulos monetários, com a compra mensal de ativos financeiros, traz riscos para a economia e para os mercados.
No dia 3 de novembro, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve anunciou que iniciará neste mês a redução da compra de ativos em US$ 15 bilhões por mês, com expectativa de encerrar as compras em 2022, em um processo conhecido como tapering.
A visão da autoridade monetária americana tem sido de que o aumento da inflação é de carácter transitório, não exigindo um aumento rápido da taxa básica de juros.
A inflação americana, medida pelo índice de preços ao consumidor, mostrou avanço de 6,2% da taxa anualizada em outubro, a maior alta em 31 anos. “A inflação está mais persistente do que as pessoas achavam, especialmente o banco central”, disse o economista.
Para El-Erian, alta da inflação não é transitória
A alta da inflação, que não é só um problema nos Estados Unidos mas mundial, não é transitória, mas causada por um problema estrutural, na visão de El-Erian.
Nesse sentido, ele cita três mudanças acentuadas pela pandemia que contribuíram para o aumento de preços.
A primeira delas foi a disrupção na cadeia de fornecimento causada pela pandemia, que provocou a falta de contêineres e de chips no mundo inteiro, com algumas empresas fechando as fábricas.
O segundo motivo se deve a mudanças no mercado de trabalho. Parte dos trabalhadores não retornou para seus postos após a reabertura da economia, seja porque se aposentaram ou porque mudaram de profissão, obrigando empresas como Amazon e Deer Valley Resort a aumentarem o salário mínimo para atrair funcionários.
E o terceiro fator é o aumento do consumo na pandemia, que pegou uma cadeia de suprimentos despreparada para atender a demanda. E na visão de El-Erian, esses fatores não deverão ser resolvidos ano que vem.
Mas como o Fed não viu esse cenário? A resposta, segundo o gestor, se deve ao fato de os mercados estarem distorcidos devido à política de injeção de estímulos para evitar uma recessão da economia, o que ajudou a causar mais inflação.
A boa notícia, é que há uma janela para o Fed minimizar esses riscos, acelerando a redução das compras dos títulos e reduzindo, assim, os estímulos.
El-Erian, contudo, não acredita que o banco central americano vai seguir esse caminho em função de alguns riscos para a economia, como a situação ainda preocupante da pandemia e a resistência à vacina. “Se o Fed não se mover mais rapidamente na reversão das políticas, há um risco material de no meio de 2022 ele enfrentar quatro adversidades”, disse El-Erian.
Essas forças contrárias seriam o aumento da taxa básica de juros para controlar a inflação e trazê-la para a meta; o impacto dos juros mais altos no mercado imobiliário e na economia, capacidade limitada do Fed para evitar uma recessão com a inflação alta; e a questão fiscal adicionada pelas compras dos ativos. “Espero que o Fed reaja para evitar um pouso forçado como reação da política monetária.”
Como a reversão dessa política afeta os mercados
A reversão da política monetária de taxas de juros negativas e de injeção de estímulos com a compra de títulos deve levar os investidores a ficarem mais seletivos na compra de ativos, segundo El-Erian.
Em segundo lugar, ao subir a taxa de juros depois de anos de injeção de estímulos, há um aumento do risco de instabilidade financeira.
“Hoje a volatilidade nos Treasuries [títulos do tesouro americano] já é maior que no mercado de ações”, disse El-Erian, destacando que o balanço de risco atual no mercado de bônus é maior que no de ações, especialmente olhando para os vencimentos com prazos mais curtos.
Isso tem explicado, em parte, o direcionamento dos recursos para a bolsa, que tem sustentado a alta das ações americanas. “Deixar o dinheiro em caixa com inflação de 6% não é uma boa alternativa.”
As consequências para os mercados emergentes
As consequências para os mercados emergentes, como o Brasil, estão na sequência do banco central brasileiro de seguir a autoridade monetária nos Estados Unidos e subir a taxa básica de juros, olhando para um cenário de juros mais altos lá fora.
Com os juros mais elevados nos Estados Unidos, o dólar tende a se fortalecer, já que o retorno pago pelos títulos americanos fica mais atrativo, o que pode levar a uma saída dos mercados emergentes. Dólar mais alto pressiona ainda mais a inflação.
Mas esse cenário também traz oportunidades de investimento para os investidores estrangeiros, principalmente no mercado de crédito e de juros local.
Sobre o investimento em criptomoedas, El-Erian acredita que o Bitcoin não vai substituir o dólar como meio de pagamento e que migração dos investimentos para as criptomoedas envolve o risco da instabilidade das plataformas, e de cibersegurança.
Investimentos em criptomoedas têm crescido como reflexo do facilidade dos meios de pagamento e busca por proteção contra a inflação, mas El-Erian destacou não ver o Bitcoin substituindo o dólar como moeda global.
El-Erian foi CEO da Pimco, uma das maiores gestoras do mundo, e acertou previsões de que a Argentina entraria em default em 1999, disse que o Brasil não daria calote e cunhou o termo “novo normal”, se referindo ao crescimento mais lento da economia de países industrializados após a crise financeira de 2007/2008. Se ele vai acertar mais uma vez, só o tempo irá dizer.