É hora de tomar cuidado com ações de bancos? Itaú BBA acha que sim e cita riscos políticos

Expansão de crédito por bancos estatais e mudanças nos impostos podem afetar instituições

Foto: Shutterstock/Thapana_Studio

O cenário para os resultados dos grandes bancos brasileiros, que já vinham enfrentando desafios em termos de recuperação de spreads e aumento de inadimplência, acaba de ganhar mais uma camada de incerteza: os riscos políticos, especialmente relacionados à expansão da concessão de crédito por bancos estatais.

Diante disso, os analistas do Itaú BBA adotam uma postura ainda mais cautelosa com as ações do setor, de acordo com relatório distribuído nesta segunda-feira (7).

“Ainda há muitos pontos em jogo, mas, por enquanto, as ações de bancos/crédito de nossa cobertura devem ganhar uma camada adicional de incerteza política”, afirmam Pedro Leduc, William Barranjard e Mateus Raffaelli, analistas do BBA. “Permanecemos cautelosos com as ações do setor como um todo”, completam.

Na avaliação do Itaú BBA, os bancos públicos devem assumir um papel significativo no próximo governo, uma vez que, historicamente, estas instituições costumam ser utilizadas como ferramentas para a expansão econômica em momentos de déficit nas contas públicas, como esperado para 2023.

A principal consequência de uma política deste tipo, que faria os bancos públicos priorizarem o fomento ao crescimento econômico em vez da rentabilidade, é a pressão sobre seus balanços. Um efeito secundário, porém, é a indução de ROEs menores em toda a indústria.

Neste sentido, os analistas afirmam que os três principais bancos estatais – o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil têm capital regulatório de sobra, suficiente para injetar cerca de R$ 2 trilhões em crédito na economia.

De um lado, caso esta expansão de crédito seja feita da maneira correta, de fato poderia impulsionar o desenvolvimento econômico e alimentar o crescimento. Por outro lado, porém, a estratégia pode gerar uma fuga de capital privado do país, efeito conhecido como crowding-out, e se provar insustentável.

Além disso, o BBA aponta que a diminuição da participação do BNDES no sistema de crédito teve um impacto positivo na atividade dos mercados de capitais e nos bancos de investimento, o que pode ser revertido.

Em outra frente, o cenário de contas públicas mais apertadas também cria o risco de uma maior taxação do sistema financeiro. Um exemplo, segundo os analistas, seria a remoção de benefícios fiscais ligados ao IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), que, na avaliação do BBA, poderia eliminar entre 10% e 15% dos lucros do setor, caso não haja alguma forma de compensação.

Estes riscos políticos, afirmam os analistas, criam uma camada adicional de incerteza em um cenário já desafiador para os lucros dos bancos nos próximos trimestres, com desaceleração na recuperação da margem financeira, impactos da rápida alta nas taxas de juros, mudanças no mix de capital e aumento da inadimplência.

Um destaque neste cenário, segundo o BBA, é o Banco do Brasil, que deve reportar resultados superiores ao de seus pares no segundo semestre deste ano e em 2023. Por isso, e não por uma maior visibilidade em relação às políticas para os bancos públicos, os analistas mantêm sua classificação de outperform – equivalente a uma recomendação de compra – para o papel.

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