Davi x Golias, ou Brasil x EUA: Quem ganha o duelo em bolsa, câmbio e juros? Kinea responde

Mesmo com cenário econômico difícil, baixas expectativas do mercado brasileiro podem abrir espaço para surpresas favoráveis

Foto: Pixabay

Com a analogia à batalha entre “Davi e Golias” para falar de investimentos no Brasil e nos Estados Unidos, a Kinea destacou, em sua carta mensal, que ainda que o mercado americano seja o favorito “óbvio”, o preço dos ativos brasileiros pode ser uma importante vantagem competitiva para 2022.

“Como todo value investor bem sabe, retornos sobre investimentos não são somente um fator de qualidade e crescimento: preço é uma variável fundamental. É nesse quesito que o pequenino Davi Brasileiro pode apresentar vantagem sobre o Golias norte-americano”, argumenta a gestora.

Na análise da Kinea, as baixas expectativas em torno do mercado brasileiro podem abrir espaço para surpresas. Não há como comparar a economia americana com a doméstica – na verdade, diz a gestora, a economia dos Estados Unidos se coloca muito acima de todas as outras ao redor do globo em termos de força e crescimento, estando cerca de 3% acima dos níveis pré-pandemia.

As perspectivas são ainda mais animadoras, com projeção de crescimento do PIB para o quarto trimestre perto de 8%.

As expectativas para o Brasil, por outro lado, são desafiadoras. A política monetária apertada do Banco Central e o aumento do prêmio de risco causado pelo cenário fiscal devem fazer com que o país entre em estagflação no ano que vem, segundo a Kinea.

No entanto, mesmo tendo passado por uma série de crises recentes, para a gestora, o Brasil não deixou de apresentar oportunidades de investimento, seja em bolsa, juros ou câmbio. A Kinea aponta que os ativos brasileiros estão muito baratos, principalmente ao considerar o diferencial de juros reais do Brasil e dos EUA.

Um ponto de preocupação levantado pela carta são as eleições presidenciais de 2022, que devem acrescentar volatilidade ao mercado. Mas, na análise da Kinea, a alta probabilidade de um segundo turno entre Lula e Jair Bolsonaro já está precificada. “Aos níveis atuais, nos parece mais provável termos uma surpresa positiva do que negativa”, assinala, ressaltando que um avanço da terceira via ou um aceno crível de Lula ao centro levaria a um governo moderado, com potencial para reduzir o prêmio exigido atualmente.

Mas, então, quem vence essa batalha? O pequeno Davi brasileiro ou o gigante Golias americano? A gestora dividiu sua análise em três classes de ativos diferentes: juros, bolsa de valores e câmbio.

Juros

Nesse quesito, a carta aponta para “empate técnico” entre Brasil e EUA. “Os dois lados apresentam boas oportunidades”, diz a Kinea. Nos Estados Unidos, as oportunidades estão do lado “tomado” nos juros (que ganha com a alta das taxas) e, no Brasil, no lado “aplicado” tanto na inflação implícita quanto nos juros curtos.

Bolsa de valores

Apesar de ser muito mais robusta, contar com uma quantidade infinitamente maior de ativos e ter muito mais volume, a bolsa de valores americana pode ter pouco espaço para crescer, na visão da Kinea.

Em um cenário de múltiplo preço/lucro de 21 vezes e com juros reais em tendência de alta, os retornos dependem apenas do crescimento dos lucros das companhias listadas, que, embora deva ser positivo, provavelmente será mais modesto do que o visto nos últimos trimestres, segundo a gestora.

No Brasil, o ambiente de baixo crescimento econômico deve frear os lucros das empresas. No entanto, o prêmio de risco das ações locais contra a renda fixa se encontra em um dos maiores patamares da última década.

“Em resumo: o S&P 500 é hoje um índice para investidores de crescimento (‘growth’): alta qualidade com altas expectativas. Enquanto o IBOV é um índice para investidores de valor (‘value’): baixo valuation com baixas expectativas”, explica o documento.

Nesse cenário, o S&P seria um índice mais estável e com retornos mais definidos, enquanto o Ibovespa deve ser ditado por mudanças de expectativas. “Valor ou crescimento para 2022? Consideramos que depende das características e apetite para risco de cada investidor, mas novamente aqui, em um cenário de melhoria de expectativas, há espaço para nosso Davi derrubar o gigante”, conclui a gestora.

Câmbio

Não há como comparar a força do dólar americano com a do real. E essa diferença deve se alargar no próximo ano, quando a moeda dos EUA deve ser impulsionada pela desaceleração da China, pelo atraso na recuperação europeia, por condições financeiras mais frouxas nos EUA e pela menor dependência de petróleo e gás natural, cujos preços têm subido.

Na visão da Kinea, o mercado tem subestimado essas vantagens para o dólar, de modo que os influxos de capitais para os EUA seguem atrativos.

A vantagem do real, porém, é que, apesar de a moeda estar sofrendo, está 15% acima do pior nível de 2002 e muito acima dos níveis de 2016.

Na análise da gestora, as duas moedas têm potencial de performar bem contra seus pares. Além disso, manter ambas no portfólio pode ser uma boa maneira de balancear riscos, “uma vez que o real é uma moeda de risco e carrego e o dólar, uma moeda que performa bem em cenários mais defensivos”.

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