O turismo no Brasil, após sofrer com os estragos causados pela pandemia, teve em 2021 um início de recuperação. Segundo dados da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), o faturamento do setor cresceu 12% no ano passado, para R$ 152,4 bilhões, mas ainda 24,2% abaixo do nível de 2019, o último ano antes da crise de saúde enfrentada por todo o mundo.
A retomada é reflexo de uma demanda que ficou reprimida durante o período de restrições mais severas ao longo da pandemia. Além disso, o setor contou com uma ajudinha do dólar nas últimas semanas, que tem se desvalorizado e chegou a R$ 4,75, o menor valor desde 11 março de 2020.
A agência de viagens CVC Brasil (CVCB3), a única empresa de turismo negociada na bolsa brasileira, tem conseguido surfar essa melhora do setor e da economia.
Em 2021, as reservas confirmadas da CVC cresceram 40,7% em comparação a 2020, para R$ 8,9 bilhões. Só no quarto trimestre, foram R$ 3,04 bilhões, aumento de 63,9% em relação a igual período de 2020.
Porém, quando comparado com o período pré-pandemia, as reservas confirmadas do último trimestre representam apenas 57%. O motivo é que em outubro a empresa sofreu com ataques cibernéticos e também com a chegada da Omicrôn, variante da Covid-19, que reascendeu a preocupação da população e freou a evolução da empresa.
O aumento das reservas se refletiu no faturamento da companhia. No quarto trimestre, período marcado por uma maior procura por viagens, os preços dos produtos subiram e a receita líquida da companhia avançou 92,9% em relação ao último trimestre de 2020. Com isso, o take rate, que é a margem cobrada pelos serviços prestados da CVC, avançou 0,3 ponto percentual, chegando a 9,1% no período.
A empresa, além disso, também conseguiu reduzir a sua dívida, em parte por causa de uma captação feita pela companhia em agosto do ano passado, quando levantou R$ 806,6 milhões em um follow on.
Os recursos levantados no processo foram utilizados para quitações de dívidas e investimentos estratégicos. A dívida bruta da empresa caiu 47,5% no último trimestre em comparação ao mesmo período de 2019, para R$ 1,24 bilhão.
Com isso, a dívida líquida também caiu, de R$ 1,7 bilhão ao fim de 2019 para R$ 322,2 milhões ao fim de 2021. Mas há um detalhe. A dívida líquida é a dívida bruta menos o que a empresa tem em caixa. Não significa, necessariamente, que a dívida foi paga.
E os números foram bem recebidos pelo mercado. Desde a divulgação do balanço, no dia 15 de março, a empresa teve alta em 11 pregões em sequência. O acumulado dos últimos 30 dias resulta em alta de 51,51%.
As pedras no caminho
Apesar de toda a empolgação dos investidores, o cenário ainda é incerto, pois o setor é sensível à conjuntura macroeconômica, em especial ao poder de compra dos consumidores.
Juros de dois dígitos, inflação elevada, alta taxa de desemprego e ano eleitoral são fatores que podem dificultar a retomada. Com juros e inflação nas alturas, as viagens encarecem cada vez mais. Nesta sexta-feira (08), o IBGE divulgou o IPCA para março, que subiu 1,62%, a maior alta para o mês desde 1994, e aumentou a chance de o Banco Central (BC) elevar a Selic ainda mais. Hoje, a taxa básica está em 11,75%.
A alta taxa de desemprego, que ficou em 11,2% no trimestre encerrado em janeiro, tende a fazer com que possíveis clientes posterguem suas viagens para consumir apenas bens essenciais. Já o ano eleitoral torna incerta a política econômica que será instaurada no país a partir do ano que vem.
Não bastasse esse cenário, a guerra no leste europeu impulsionou os preços do petróleo, que atingiram patamares históricos. O barril de petróleo do tipo Brent é negociado a US$ 102,87, em alta de 2,25% nesta sexta, e está acima de US$ 100 há três semanas. O preço elevado do petróleo resulta em combustíveis mais caros, que encarecem as viagens, seja por terra ou pelo ar.
Algumas empresas aéreas reduziram suas frotas para equilibrar custos e manter a saúde financeira. Essa atitude influencia no desempenho da CVC, que depende indiretamente do setor para venda dos pacotes de viagem.
Além desses desafios, a empresa enfrenta a alta concorrência online. A CVC possui apenas 3% de participação de mercado nos canais digitais. As chamadas OTAs (agências de viagens online) estão preenchendo o vazio que havia no setor, dificultando o crescimento da CVC.
Um estudo feito pela Onfly, empresa especializada em viagens corporativas, mostra que as OTAs Hurb e 123Milhas estão entre os sites mais acessados de turismo no Brasil, enquanto a Submarino Viagens, a agência de viagens online da CVC, está em 47º.
De acordo com relatório lançado pela Skifit, as buscas globais por estadias em hotéis continuam 31% abaixo do nível comparado com 2019, enquanto novas reservas feitas em janeiro de 2022 representam apenas 54% do obtido em janeiro de 2019.
No ambiente internacional, concorrentes como Expedia e Booking têm obtido maior sucesso na recuperação do setor, embora os resultados ainda sejam inferiores aos níveis pré-pandemia.
A Expedia, dona das marcas Hoteis.com e Trivago, obteve uma receita total de US$ 2,3 bilhões no último trimestre de 2021, o que representa 83% do mesmo período de 2019. Já as reservas brutas cresceram em 97% em 2021, em comparação ao ano de 2020, e atingiram US$ 17,5 bilhões no quarto trimestre, o que representam 75% do valor obtido no mesmo período de 2019.
Em 2021, a empresa Booking obteve um faturamento de US$ 11 bilhões, que representa 72,84% do resultado obtido em 2019. Já para as reservas brutas houve um aumento de 160% no quarto trimestre, comparado a igual trimestre do ano anterior, atingindo um total de US$ 19 bilhões, porém US$ 1,7 bilhão a menos que o mesmo período de 2019.
No entanto, a CVC Brasil tem tomado atitudes para ganhar espaço no mundo digital. Em 2021, a empresa fez um investimento de R$ 134 milhões em tecnologias e, para 2022, a tendência é que haja um investimento do mesmo valor ou superior.
O que pensam os analistas?
Por meio de dados compilados pela Refinitiv e apresentados na plataforma TradeMap, três dos cinco analistas recomendam a compra do papel, enquanto os outros dois indicam a manutenção do ativo na carteira.
Nesta sexta-feira, o papel fechou em queda de 5%, a R$ 15,00. A mediana das estimativas para o preço-médio do papel é de R$ 20,00, uma valorização potencial de 33,33%.