Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, as altas de preços em commodities como o petróleo e os grãos têm protagonizado as discussões de mercado, assim como as oportunidades e riscos que essa dinâmica traz para as empresas destes segmentos. Há, no entanto, um outro setor, pouco falado nesse contexto, que pode ser afetado pela guerra: o de papel e celulose.
A Rússia é uma das principais exportadoras mundiais de madeira em tora, utilizada na produção de papel e celulose. De acordo com dados da Observatory of Economic Complexity (OEC), plataforma de informações sobre o comércio global, a Rússia foi responsável por 7,8% da exportação global de madeira bruta e 11,4% da madeira serrada em 2020.
Assim, limitações em sua produção podem abrir uma oportunidade para a Suzano, maior exportadora brasileira do setor, que pode capturar uma fatia do mercado que antes pertencia à Rússia.
Nos 12 meses de 2021, a Suzano exportou 10,16 milhões de toneladas de papel e celulose, e os ganhos das vendas para o exterior corresponderam a 83,6% da receita líquida da companhia no período.
“A Suzano é hoje a maior produtora de celulose de eucalipto do mundo e uma das que mais exporta”, aponta Heitor de Nicola, assessor de renda variável da Acqua Vero Investimentos, que acredita que a Suzano está bem posicionada para capturar esse mercado em potencial. “Se a Rússia diminuir a exportação dessa madeira, para evitar risco de escassez no mercado, os países vão precisar procurar em outro lugar. E tem aqui”, diz o analista.
Essa restrição, que ocorre em um mercado em que a oferta já estava reduzida, segundo Alexandre Cancherini, gestor e analista de renda variável da Frontier Capital, também deve impulsionar os preços da celulose no curto prazo, o que joga a favor da Suzano, que vende seus produtos a preços mais elevados.
No quarto trimestre de 2021, o preço médio líquido da celulose para o mercado externo praticado pela Suzano foi de US$ 630 por tonelada, expansão de 38% na comparação com os mesmos três meses do ano anterior.
Segundo dados da agência de dados sobre preços de commodities Fastmarkets compilados pelo Bank of America (BofA), o preço médio da celulose de fibra curta na China passou de US$ 459 por tonelada em 2020 para US$ 654 em 2021 – e deve alcançar uma média de US$ 719 por tonelada ao longo de 2022, diz o banco em relatório distribuído na última quinta-feira (24).
A projeção da equipe de analistas do Itaú BBA, em relatório de 16 de fevereiro, é que a celulose fique em US$ 600 por tonelada em 2022. Apesar de o banco ver fundamentos que apoiam os preços da celulose em patamares mais altos em 2022, o relatório faz a ressalva de que aumentos em capacidade de produção podem causar certa pressão.
O Itaú BBA menciona a demanda saudável, os estoques globais a níveis reduzidos, o forte cronograma de manutenções no primeiro trimestre deste ano e menor capacidade de produção como pontos que sustentam sua tese positiva para o preço da commodity.
Riscos por trás das oportunidades
Apesar das oportunidades mencionadas, o conflito na Ucrânia, assim como outros fatores, como o câmbio, tem criado ameaças para a Suzano.
Em primeiro lugar, a mesma dinâmica que impulsiona os preços da celulose aumenta também a cotação de outras commodities, como o petróleo – o que, por sua vez, tem impacto direto sobre os custos de frete da Suzano, diz Heitor de Nicola.
Além disso, em seu processo de produção de celulose, a companhia utiliza combustíveis para queimar madeira. Assim, a alta do petróleo também pode aumentar esta linha de custos. “Esse é o primeiro ponto. Por conta da alta do petróleo, esses combustíveis que eles utilizam tanto em logística quanto no processo de produção da matéria-prima ficam mais caros”, explica de Nicola.
A crise do leste europeu também agrava um problema que vem ocorrendo desde o início da pandemia de Covid-19: a falta de suprimentos. Segundo o assessor da Acqua Vero, a escassez de navios e contêineres também age sobre os custos de frete. “Essa piora no cenário logístico global, que tem sido um pouco caótico no pós-pandemia, também pode apertar um pouco a parte de custos”, declara.
No quarto trimestre de 2021, o custo de produção de uma tonelada de celulose da Suzano teve aumento de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior, devido principalmente a custos mais altos de produtos químicos e combustíveis.
Para Cancherini, ainda que seja um ponto a ser monitorado, o aumento de custos da produção deve pressionar toda a indústria – e, nesse sentido, a Suzano pode ser menos impactada, uma vez que a companhia é a mais eficiente no setor de papel e celulose globalmente em termos de custo caixa.
O custo caixa sem paradas da Suzano foi de R$ 747 por tonelada no período entre outubro e dezembro do ano passado, alta de 20% em relação ao quarto trimestre de 2020.
“Esse aumento de insumos, de custos, é bom? Não é bom. Mas é muito pior para quem não é tão eficiente quanto a Suzano”, afirma o gestor.
A análise de Nicola também é que a Suzano pode não ser tão impactada, pois tem sido capaz de repassar esse aumento de custos para o consumidor. “Por mais que os custos dela tenham aumentado na ponta da cadeia produtiva, ela está conseguindo repassar esse custo para os clientes”, afirma.
Na análise do BBA, “os preços mais altos de papel e celulose mais do que compensam os custos mais elevados”. O BofA também vê o aumento nos preços de celulose mais do que compensando a pressão sobre os custos em 2022.
Também como consequência da guerra, o Brasil tem passado por uma crise no fornecimento de fertilizantes, uma vez que a importação vem em grande parte da Rússia. Isso, porém, não deve impactar tanto a Suzano, diz Cancherini, pois a companhia tem níveis de estoque confortáveis.
Outro fator que tem sido interpretado como uma possível ameaça para a Suzano é a queda do dólar em relação ao real. Porém, na visão de Nicola, mesmo que a desvalorização da moeda cambial possa impactar a linha de receitas da companhia, uma vez que mais de 80% do seu faturamento vêm da exportação, outro efeito é o recuo da dívida da empresa, que também é denominada em dólares.
Ao fim de 2021, o somatório das dívidas da Suzano em dólar era de R$ 66 bilhões, o equivalente a 83% do endividamento total da companhia.
Apesar de reconhecer que o cenário em 2022 deva ser mais desafiador do que os dois anos anteriores, Nicola acredita que “o cenário está tendendo um pouco mais para o positivo” para a Suzano.
Entre os pontos que jogam a favor da Suzano, além dos já mencionados, estão a alta produtividade e disponibilidade de terras no Brasil; a abundância de água; a base de ativos únicos da companhia, integrados e estrategicamente localizados; e a escala, fundamental em um setor intensivo em capital, segundo Alexandre Cancherini.
“Tem uma história estrutural do Brasil ser muito competitivo e de a Suzano ter essas características, escala e base de ativos única, que faz com que tenhamos uma visão bem favorável para o ativo, a despeito do movimento do câmbio”, diz o gestor, acrescentando que o fortalecimento do real tem impacto de curto prazo sobre a percepção de valor da empresa.
Na outra ponta, entre os principais riscos para a performance da Suzano, o BofA menciona tendências cíclicas globais; o preço da celulose na China; uma potencial volatilidade na economia brasileira e na taxa de câmbio; riscos operacionais ligados às fábricas; riscos de integração da combinação com a Fibria; riscos ligados a grandes projetos de investimento; volatilidade e tendências de demanda e precificação do setor; e riscos criados pela pandemia de Covid-19.