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Cenário econômico e erros de gestão afastaram multinacionais do Brasil; relembre casos

Cenário econômico e erros de gestão afastaram multinacionais do Brasil; relembre casos

O Brasil tem assistido a um movimento de saída de empresas multinacionais, tanto de quem deixa o país completamente ou parcialmente

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Foto: Shutterstock

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Nos últimos anos o Brasil tem assistido a um movimento de saída de algumas empresas multinacionais do seu território. Seja tirando completamente suas operações do país ou apenas reduzindo e fechando algumas fábricas, empresas conhecidas de toda a população têm diminuído a exposição ao mercado local.

O caso mais emblemático foi o da Ford (FDMO34), que fechou suas três fábricas por aqui em janeiro de 2021. Contudo, esse não é o único caso. Mais recentemente o Makro, um dos mais tradicionais atacadistas do Brasil e presente no país desde os anos 1970, anunciou que estava procurando compradores para suas unidades.

Os exemplos não param por aí, nos últimos cinco anos, ou encerraram as atividades por aqui ou reduziram sua atuação, empresas como Forever 21, Nike (NIKE34), Sony (SNEC34) e Mercedes.

Os motivos, contudo, são diferentes para cada setor. No caso do setor de carros, encabeçado pela Ford e pela Mercedes, o fator primordial é o cenário macroeconômico brasileiro. Essa é a avaliação de Orlando Merluzzi, sócio-gestor da MA8 Management Consulting Group, que atua no segmento há mais de 30 anos com passagens pela Ford, Volkswagen, Volvo e Iveco, em entrevista à Agência TradeMap

Ele comenta que no início da década passada o mercado brasileiro bateu recordes no volume de vendas. Em 2012, por exemplo, o Brasil encerrou o ano com 3,8 milhões de veículos vendidos no ano, segundo dados da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores).

“Antes de 2014 tínhamos um cenário de aumento nas reservas cambiais, inflação controlada, taxa de juros mais baixa e o dólar também baixo. A indústria se preparou para vender até 5 milhões de veículos em 2016, mas com as crises políticas e econômicas fizemos apenas 2 milhões na ocasião. Desandou tudo”, comentou Merluzzi.

Além disso, acrescenta, o país representa menos de 3% do mercado automobilístico mundial, o que deixa o cenário menos atraente para montadoras focadas em tecnologias novas e que demandam altos investimentos – carros elétricos e híbridos, por exemplo.

“No Brasil, esses investimentos das montadoras não são justificados porque elas estão focadas na América do Norte, Europa e Ásia, que representam 90% do mercado mundial de veículos. Nessas regiões já existe o investimento em tecnologia e fábricas de baterias elétricas”, comentou.

O caso da Ford

A saída da montadora americana foi emblemática porque a empresa foi a primeira do setor a se instalar no Brasil, isso em 1919. Foram, portanto, 101 anos de atuação no país. Com o fechamento das fábricas, os negócios reduziram-se apenas a importações.

Ao todos, as três instalações produtivas da empresa foram fechadas — a de Camaçari, na Bahia, onde os modelos EcoSport e Ka eram produzidos, a de Taubaté (SP), que produzia motores, e a de Horizonte, no Ceará, que fabricava jipes.

A Ford tinha cerca de 12 mil empregados diretos e indiretos no Brasil. Apesar da saída das fábricas, a sede administrativa da montadora na América do Sul, localizada em São Paulo, foi mantida, assim como o centro de desenvolvimento de produto, na Bahia, e o campo de provas de Tatuí, em São Paulo.

Orlando Merluzzi afirma que a Ford decidiu sair do país veio após a matriz da companhia perceber que o Brasil corresponde a um percentual baixo de vendas e que seria insustentável continuar investindo aqui. 

Na época, a empresa alegou o encerramento das atividades por uma “continuidade do ambiente econômico desfavorável e pressões adicionais causadas pela pandemia de Covid-19”.

Segundo dados da Fenabrave, em 2020 – último ano em que a Ford teve fábricas no Brasil -, a empresa vendeu 139 mil veículos. Em 2021, atuando somente com importações, o número caiu para 37 mil.

“A Ford tinha uma operação forte mas que não dava lucro, e foi perdendo participação no mercado. Primeiro perdeu 10% e ficou competindo numa faixa entre 7% e 8%, e aí já não era suportável. A matriz preferiu sair daqui para investir em outros países”, comentou Merluzzi.

Além da Ford, a Mercedes, apesar não ter saído completamente do país, reduziu suas operações ao encerrar no final de 2020 a produção de automóveis premium na fábrica de Iracemápolis, localizada no interior de São Paulo. Na época, a empresa afirmou que a decisão foi tomada “com base em vários fatores incluindo a situação atual do mercado brasileiro”.

Para o futuro, Merluzzi vislumbra que mais empresas devem sair, se o cenário macroeconômico continuar igual ao atual. “Nos próximos três anos é possível que tenhamos mais alguma marca encerrando operações de manufatura mas mantendo importação aqui no Brasil, e as redes de concessionárias vão pagar essa conta”, finaliza.

O setor de varejo

Se no setor automobilístico o problema vem da situação macroeconômica do país, no caso das empresas varejistas, as saídas são motivadas pela gestão de cada empresa. É isso que argumenta André Pimentel, sócio da Performa Partners com experiência em projetos de melhora de desempenho e reestruturações em empresas como GPA, RiHappy, Centauro, C&A e Intermédica Saúde.

No caso do Makro, que tomou conta do noticiário recentemente ao ser colocado à venda pelo seu controlador, o grupo holandês SHV. Ao todo, a operação brasileira contém 24 pontos, se concentrando no estado de São Paulo.

Pimentel destaca que a rede foi uma das pioneiras na operação de atacado no Brasil, chegando em terras nacionais com um modelo de negócio diferente focado em fidelização do público. Contudo, acabou sofrendo muito nos últimos anos com um acirramento da concorrência.

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Segundo análise realizada em 2020 pela NielsenIQ, por encomenda da Abaas (Associação Brasileira dos Atacadistas de Autosserviço), o segmento de atacarejo cresceu cerca de 26% em faturamento, enquanto supermercados e hipermercados subiram 13%.

Entre as concorrentes, com 250 unidades no fim de 2021, o Atacadão é o primeiro da lista, com um faturamento de mais de R$ 58 bilhões em 2021. Em seguida, está o Assaí, que somou R$ 45,5 bilhões. O Makro está apenas na 16ª posição, com faturamento de R$ 3 bilhões.

“Ao longo do tempo o Makro foi perdendo a competitividade, passando a ter uma disputa muito dura e forte com os atacarejos. De certa forma, ele não quis sair muito do modelo original dele, e com isso, as operações acabaram ficando prejudicadas”, avalia Pimentel.

“O mercado brasileiro é muito complexo, se movimenta muito rápido e ainda possui grandes players nacionais como Assaí, GPA – que mesmo controlado por franceses tem uma raíz nacional – e Atacadão. É difícil bancar uma competição com essas empresas se você não entrar no jogo”, afirma Pimentel, da Performa Partners.

Para além da rede de varejo alimentício, outro caso que tomou notoriedade nos últimos anos foi o da Forever 21, loja de roupas focadas em alta renda, que fechou quase metade da suas lojas no brasil de 2019 para cá, passando de 36 para 19. No final daquele ano, a empresa entrou em recuperação judicial nos Estados Unidos, e começou um movimento de fechar unidades por todo o mundo.

Ele avalia a saída de algumas lojas da marca no Brasil por uma “questão de gestão”, e acrescenta que o posicionamento de mercado da empresa é diferente aqui do que em outros lugares no mundo.

“Lá fora ela abarca um público de menor poder aquisitivo, e aqui chegou com uma ‘pose’ de marca premium, e isso não se sustentou. Além disso, começou a operar no Brasil num momento de crise econômica, um erro estratégico forte”, avalia.

Uma forma de diminuir suas operações no Brasil mas não sair por completo foi adotada pela Nike, que iniciou uma parceria com o Grupo SBF (SBFG3), dona da Centauro no final de 2020, para entregar as operações da marca ao conglomerado.

Desde então, o grupo possui exclusividade na distribuição de produtos da Nike. Segundo comunicado feito na época pelas empresas, o objetivo era garantir que a marca americana continuasse no país.

Para o futuro, André Pimentel não vê um movimento generalizado ou forte de varejistas saindo do Brasil, e enxerga apenas possíveis “reajustes da cadeia produtiva global de fabricantes de bens de consumo e bens duráveis”, movimento que, segundo ele, acontece no Brasil e em outros países também.

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