BC decreta fim do ciclo de alta dos juros e mantém taxa Selic em 13,75% ao ano

Decisão não foi unânime; dois diretores votaram pela elevação em 0,25 ponto percentual

Foto: Shutterstock

A desaceleração da inflação levou o Banco Central a colocar um ponto final no atual ciclo de aperto monetário, mantendo a taxa Selic em 13,75% ao ano nesta quarta-feira.

A decisão não foi unânime. Os diretores Fernanda Magalhães Rumenos Guardado e Renato Dias de Brito Gomes votaram pela elevação de 0,25 ponto percentual. Os demais sete votos foram favoráveis à manutenção.

O Comitê sinalizou que irá avaliar se a manutenção da taxa por um “período suficientemente prolongado” será capaz de contribuir para a convergência da inflação, não descartando a retomada das altas se o “processo de desinflação não ocorrer como o esperado”.

O colegiado mostrou ainda preocupação com o efeito das taxas sobre a atividade econômica.

“Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego”, explicou.

Para lidar com o aumento disseminado dos preços e dos riscos fiscais e externos, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) subiu a Selic por 12 reuniões consecutivas, o que fez a taxa básica sair de 2%, em março de 2021, até chegar ao atual patamar.

E esse patamar deve ficar inalterado ao menos até meados do ano que vem. Apesar da desaceleração da inflação, os riscos fiscais e externos devem fazer com que o Copom espere mais um pouco para iniciar a flexibilização da política monetária, ou seja, redução na Selic.

Flexibilização demorada

Para Rafael Cardoso, economista-chefe da Daycoval Asset, essa flexibilização irá ocorrer quando a inflação ceder de forma mais disseminada, o que só deve acontecer no ano que vem. A deflação registrada em julho e agosto, e que deve se repetir em setembro, está mais ligada às medidas de renúncia fiscal que afetaram o preço dos combustíveis e energia.

“A característica da inflação em 2023 é que irá mudar, uma vez que acreditamos que a parte de ‘tradables’ (produtos negociados globalmente, como as commodities agrícolas) contribuirá para uma inflação mais baixa. O ‘vilão’ será o preço de serviços”, completa.

Gustavo Castro, assessor de investimentos da DOM Investimentos, lembra ainda que a política monetária demora para fazer efeito na economia. Quando o BC sobe os juros, a intenção é conter a demanda. Com menor consumo e investimentos, há tendência é de uma menor pressão inflacionária. No entanto, há uma defasagem entre seis meses e 12 meses para que o aumento de juros produza esse efeito.

“Com os juros no patamar atual, temos a sensação que o trabalho já foi feito. Agora é o momento de aguardar próximos indicadores de inflação e atividade econômica, que vai ditar se será necessário mais juro ou não”, avalia.

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Para Sidney Lima analista da Top Gain, a manutenção dos juros no Brasil ocorre porque o processo de alta dos juros começou antes e o pico da inflação já foi atingido, diferente de outras economias.

“Temos sinalizadores que o mercado brasileiro já chegou ao pico da inflação, que é um problema que ocorre em contexto mundial”, diz.

Em abril, quando atingiu seu pico, a inflação em 12 meses foi de 12,1%. Já nos 12 meses encerrados em agosto, a alta do IPCA era de 8,7%.

Isso não significa que a situação para o Brasil está sob controle. A demora para o início da redução dos juros está ligada, segundo analistas, ao risco de recessão global e às incertezas em relação a qual âncora fiscal o Brasil irá adotar a partir do ano que vem.

Essa recessão global é um dos efeitos do aumento dos juros nos Estados Unidos e Europa, o que pode respingar no Brasil. Nesta quarta-feira, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) subiu a taxa em 0,75 ponto percentual, para a faixa de 3,00% a 3,25% ao ano.

Comunicado

Confira a íntegra do comunicado do Copom:

Em sua 249ª reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter a taxa Selic em 13,75% a.a.

A atualização do cenário do Copom pode ser descrita com as seguintes observações:

O ambiente externo mantém-se adverso e volátil, com contínuas revisões negativas para o crescimento das principais economias, em especial para a China. O ambiente inflacionário segue pressionado, enquanto o processo de normalização da política monetária nos países avançados prossegue na direção de taxas restritivas;

Em relação à atividade econômica brasileira, a divulgação do PIB apontou ritmo de crescimento acima do esperado no segundo trimestre, e o conjunto dos indicadores divulgado desde a última reunião do Copom seguiu sinalizando crescimento;


A inflação ao consumidor, apesar da queda recente em itens mais voláteis e dos efeitos de medidas tributárias, continua elevada;


As diversas medidas de inflação subjacente apresentam-se acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta para a inflação;


As expectativas de inflação para 2022, 2023 e 2024 apuradas pela pesquisa Focus encontram-se em torno de 6,0%, 5,0% e 3,5%, respectivamente; e


No cenário de referência, a trajetória para a taxa de juros é extraída da pesquisa Focus e a taxa de câmbio parte de USD/BRL 5,20*, evoluindo segundo a paridade do poder de compra (PPC). O preço do petróleo segue aproximadamente a curva futura pelos próximos seis meses e passa a aumentar 2% ao ano posteriormente. Além disso, adota-se a hipótese de bandeira tarifária “verde” em dezembro de 2022 e “amarela” em dezembro de 2023 e de 2024. Nesse cenário, as projeções de inflação do Copom situam-se em 5,8% para 2022, 4,6% para 2023 e 2,8% para 2024. As projeções para a inflação de preços administrados são de -4,0% para 2022, 9,3% para 2023 e 3,7% para 2024. O Comitê optou novamente por dar ênfase ao horizonte de seis trimestres à frente, que reflete o horizonte relevante, suaviza os efeitos diretos decorrentes das mudanças tributárias, mas incorpora os seus impactos secundários. Nesse horizonte, referente ao primeiro trimestre de 2024, a projeção de inflação acumulada em doze meses situa-se em 3,5%. O Comitê julga que a incerteza em torno das suas premissas e projeções atualmente é maior do que o usual.


O Comitê ressalta que, em seus cenários para a inflação, permanecem fatores de risco em ambas as direções. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma maior persistência das pressões inflacionárias globais; (ii) a incerteza sobre o futuro do arcabouço fiscal do país e estímulos fiscais adicionais que impliquem sustentação da demanda agregada, parcialmente incorporados nas expectativas de inflação e nos preços de ativos; e (iii) um hiato do produto mais estreito que o utilizado atualmente pelo Comitê em seu cenário de referência, em particular no mercado de trabalho. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma queda adicional dos preços das commodities internacionais em moeda local; (ii) uma desaceleração da atividade econômica global mais acentuada do que a projetada; e (iii) a manutenção dos cortes de impostos projetados para serem revertidos em 2023. O Comitê avalia que a conjuntura, ainda particularmente incerta e volátil, requer serenidade na avaliação dos riscos.

Considerando os cenários avaliados, o balanço de riscos e o amplo conjunto de informações disponíveis, o Copom decidiu manter a taxa básica de juros em 13,75% a.a. O Comitê entende que essa decisão reflete a incerteza ao redor de seus cenários e um balanço de riscos com variância ainda maior do que a usual para a inflação prospectiva, e é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante, que inclui o ano de 2023 e, em grau menor, o de 2024. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.

O Comitê se manterá vigilante, avaliando se a estratégia de manutenção da taxa básica de juros por período suficientemente prolongado será capaz de assegurar a convergência da inflação. O Comitê reforça que irá perseverar até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas. O Comitê enfatiza que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso o processo de desinflação não transcorra como esperado.

Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Roberto de Oliveira Campos Neto (presidente), Bruno Serra Fernandes, Carolina de Assis Barros, Diogo Abry Guillen, Maurício Costa de Moura, Otávio Ribeiro Damaso e Paulo Sérgio Neves de Souza. Os seguintes membros votaram por uma elevação residual de 0,25 ponto percentual: Fernanda Magalhães Rumenos Guardado e Renato Dias de Brito Gomes.

*Valor obtido pelo procedimento usual de arredondar a cotação média da taxa de câmbio USD/BRL observada nos cinco dias úteis encerrados no último dia da semana anterior à da reunião do Copom.

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