Na semana passada, o presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos), Jerome Powell, voltou a balançar os mercados, admitindo que a inflação americana está mais alta do que o previsto e que uma elevação mais rápida na taxa de juros pode ser a medida mais adequada, chegando a destacar que a possibilidade de um aumento de 0,5 ponto percentual na próxima reunião está sobre a mesa.
Após esse indicativo, os especialistas já apostam em uma alta de 0,50 ponto percentual na próxima reunião do Fed, o que levaria a taxa de juros americana a um patamar entre 0,75% e 1%. A expectativa da maior parte dos analistas, de acordo com dados do CME Group, é que a taxa chegue ao fim de 2022 entre 275 e 300 pontos base.
Expectativa do mercado americano para a taxa de juros ao fim de 2022

Nesse cenário, a renda fixa americana tende a parecer mais atrativa do que a renda variável. Os títulos do tesouro de 10 anos dos EUA somam valorização de mais de 80% desde o início do ano, enquanto os principais índices de ações do país acumulam quedas no mesmo período: o S&P 500 de 12,4%; o Dow Jones, de 8,5%; e o Nasdaq, de 20,2%.
Há, no entanto, oportunidades para quem ainda acredita na força das empresas americanas, segundo especialistas de mercado ouvidos pela Agência TradeMap.
“O mercado já antecipou muita coisa”, diz William Castro Alves, estrategista-chefe e sócio da Avenue. “Dado que isso já aconteceu, olhando para o mercado hoje, já conseguimos ver quem foram os vencedores até aqui”, completa.
Quem deve se dar bem?
Para Alves, um setor que se destacou nos EUA foi o de seguros, em especial a Berkshire Hathaway (BERK34). Desde o início do ano, até o fechamento do pregão de terça-feira (26), as ações classe B da companhia de Warren Buffet acumulam valorização de 10,6%, ao passo que as BDRs somam perdas de 0,8% – significativamente menores do que as anotadas pelos índices de ações americanos.
Além disso, alguns bancos tendem a se beneficiar da alta de juros – mas não todos. “Há bancos e bancos. Bancos de investimentos acabam não se beneficiando tanto, porque houve uma redução na atividade, com menos IPOs e emissão de dívidas, mas para bancos com foco em crédito acaba sendo melhor”, diz o especialista.
Nesse segmento, Alves chama a atenção para Wells Fargo (WFCO34), cujas atividades são voltadas para o segmento de crédito. No ano até aqui, as ações do banco têm perdas de 7,1% – inferiores à desvalorização de 13,7% registrada no mesmo período pelo Dow Jones U.S. Banks Index, índice que reúne os bancos americanos. Os BDRs do Wells Fargo caem 17,9% no ano.
Rodrigo Lima, analista de investimentos e editor de conteúdo da Stake, vê oportunidades também nas ações ligadas a semicondutores. “Como um todo, elas estão negociando nos mesmos múltiplos do auge da pandemia, em 2020. É um setor que tem problemas de falta de insumo e de cadeia logística…, mas será que estamos no mesmo cenário de 2020?”, indaga.
Outro setor que está mais barato do que deveria, na visão de Lima, é o imobiliário. O grande medo do mercado, segundo o analista, é que a alta de juros aumente os custos de financiamento das hipotecas e engatilhe uma crise. “O setor está apanhando muito, sendo que tem um déficit muito grande de moradia nos EUA. É um mercado muito líquido, um setor que gera caixa”, diz Lima.
Alves menciona também as companhias de consumo básico, que vendem itens essenciais e que não saem do carrinho de compras dos consumidores em momentos de crise.
Entre elas, o estrategista destaca Walmart (WALM34) e Coca-Cola (COCA34), que acumulam, respectivamente, altas de 7,3%, 9,9% em suas ações americanas e perdas de 3,14% e 0,4% nas BDRs. “Você não vai deixar de tomar banho porque está tendo uma recessão. Essas empresas conseguiram surfar bem até aqui”.
Por consequências menos óbvias, as grandes empresas de saúde, como Johnson & Johnson e Procter & Gamble, também podem se sair bem neste cenário de juros em alta e receio de inflação. “Normalmente elas têm um poder de marca maior, muitas dominam determinados mercados… Essas empresas normalmente conseguem repassar preços”, explica o estrategista da Avenue.
A performance das ações americanas da Johnson & Johson em 2022 é de alta de 8% e de seus BDRs (JNJB34), de baixa de 3,2%. Os papéis da Procter & Gamble (PGCO34), por sua vez, têm desvalorização de 2,3% no ano e seus BDRs, de 10,2%.
Oportunidades que não existem no Brasil
Lima aconselha olhar com atenção para as petroleiras americanas. “É de chorar ver a valorização que elas tiveram com essa alta do petróleo se comparadas com as brasileiras”, explica, destacando a ação da Occidental Petroleum (OXYP34), que disparam 89,1% desde o início do ano – enquanto as três maiores petroleiras brasileiras, Petrobras (PETR4), PetroRio (PRIO3) e 3R Petroleum (RRRP3) subiram 23,4%, em média.
No Brasil, os BDRs da Occidental Petroleum somam ganhos de 70,7%.
Ainda nesse segmento, o analista de investimentos e editor de conteúdo da Stake aponta também as companhias que atuam com gás natural, uma vez que nenhuma petroleira brasileira tem exposição relevante à commodity. Há também outras commodities que vêm subindo e que não são muito exploradas por empresas brasileiras, como fertilizantes e metais como níquel, cobalto, rádio e metais preciosos.
Lima ressalta, porém, que esse boom de commodities não deve durar para sempre e, por isso, os investidores devem realizar um pouco de seus lucros ao longo do tempo. “Do mesmo jeito que as commodities podem ir para a estratosfera caso o conflito na Ucrânia se agrave ou caso a tolerância zero à Covid-19 na China agrave a situação da cadeia de suprimentos e da economia global, elas podem normalizar bastante. Do mesmo jeito que sobe muito rápido pode cair muito rápido”, afirma.
Alves ressalta, no entanto, que as tendências que foram observadas até agora não necessariamente devem se manter ao longo do ano. Além disso, o estrategista levanta dúvidas sobre se vale a pena comprar ações que já subiram muito no ano. Somando-se a esse cenário de risco, Lima cita ainda a guerra na Ucrânia e a nova onda de Covid-19 na China como fatores que trazem mais incertezas aos mercados.
Porém, de uma maneira geral, Alves ressalta o valor de investir no mercado americano, independentemente do cenário. “Os Estados Unidos já passaram por muitas crises, com juros e inflação muito mais altos do que hoje, mas sempre tiveram empresas que continuaram crescendo, pagando dividendos etc”.