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Fed vai acelerar o fim do dinheiro fácil e barato para combater inflação

Fed vai acelerar o fim do dinheiro fácil e barato para combater inflação

Ritmo de redução de estímulo deve dobrar, para US$ 30 bi por mês, segundo especialistas

Powell comenta alta de juros nos EUA
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O Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, vai reforçar na quarta-feira, 15, que o período de dinheiro farto e barato para os investidores vai acabar – e mais rápido do que se pensava.

Especialistas apontam que o Fed vai anunciar injeções menores de dinheiro na economia. Também esperam uma inclinação maior das autoridades da instituição a aumentar os juros em 2022. O quão rápido virá esta elevação é o que definirá o efeito da decisão sobre os mercados.

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No mês passado, o banco central americano avisou que estava preocupado com a inflação, e que reduziria o volume de títulos de dívida comprados do mercado financeiro. Foram US$ 120 bilhões em outubro, que passaram a US$ 105 bilhões em novembro e que diminuiriam para US$ 90 bilhões em dezembro. Mantida esta redução – ou “tapering”, como ficou conhecida – de US$ 15 bilhões por mês, o estímulo terminaria em junho do ano que vem.

Recentemente, porém, o presidente do Fed, Jerome Powell, disse que o fim dos estímulos poderia acontecer “talvez alguns meses mais cedo”, e dados mostraram que a inflação americana terminou os 12 meses encerrados em novembro em 6,8%, maior nível desde março de 1982. Naquela época, os juros nos Estados Unidos estavam perto de 15% ao ano. Hoje, oscilam entre zero e 0,25%.

Tanto os comentários de Powell quanto o dado de inflação fizeram os investidores ajustarem as expectativas. Agora, a previsão é que o Fed dobre a velocidade do “tapering”, para US$ 30 bilhões por mês, e eleve os juros na primeira metade de 2022. A chance é de 57,8% de alta em maio, segundo dados do CME Group baseados em negociações com contratos futuros de juros dos Estados Unidos. Há um mês este índice era de 31,2%.

Olho nos pontos

Como os investidores esperam uma postura mais rigorosa da instituição, o caldeirão do mercado só vai ferver além da conta se o banco central jogar uma pimenta extra na sinalização sobre a austeridade da política monetária.

Este tempero a mais, segundo os especialistas, pode vir estar nas projeções das autoridades a respeito de qual seria o nível ideal dos juros ao fim de cada ano. Estas previsões aparecem no chamado “gráfico dos pontos” do Fed.

Gráfico de pontos – setembro 2021

pontinhos
Fonte: Federal Reserve

Na última vez em que estes dados foram divulgados, em setembro, metade dos 18 membros do comitê de política monetária defendeu manter os juros estáveis até o final de 2022. Seis foram favoráveis a elevar a taxa em 0,25 ponto porcentual (pp), e três achavam que o correto seria ela estar 0,50 pp acima do nível corrente no encerramento do ano que vem.

Segundo o economista sênior do banco Mizuho, Colin Asher, a expectativa é que a maioria dos que estavam a favor da manutenção dos juros passe a defender pelo menos uma alta na taxa em 2022.

“Na última reunião, caminhou-se na direção de mostrar mais preocupação com a inflação”, disse ele. “Esperamos mais passos nesta direção, especialmente depois da decisão de Powell de remover o termo ‘transitório’ da discussão sobre a inflação”.

James Knightley, do ING, acredita que o gráfico dos pontos mostrará consenso do Fed em torno de pelo menos duas altas nos juros em 2022.

Covid vai nortear debate

Parte dos especialistas acha que a sinalização do Fed a respeito da alta de juros pode ser um pouco menos incisiva porque ainda há muitas dúvidas em torno do efeito da variante Ômicron do coronavírus na gravidade da pandemia de covid-19.

No fim de semana, a Organização Mundial da Saúde reiterou que a nova cepa representa um risco muito alto à população, em particular porque há chance de ela escapar à proteção oferecida pelas vacinas atuais contra a covid-19. Esta hipótese é a que mais preocupa os governos, investidores e o Fed, porque poderia resultar em um novo período de restrições à atividade econômica.

A dúvida sobre o real perigo imposto pela Ômicron deve se manifestar na forma de incertezas do Fed em torno do ritmo adequado para a elevação dos juros nos Estados Unidos, segundo o Scotiabank. A instituição aponta que dificilmente as autoridades do banco central americano vão arriscar apresentar uma estimativa de alta de juros maior que a do mercado.

“Este risco provavelmente vai aumentar quando o comitê chegar perto do momento de elevar os juros e com mais informações em torno dos casos das variantes Delta e Ômicron”, acrescentou.

Efeito nos juros

A sinalização de um aperto monetário mais intenso em 2022 e em 2023 pode forçar os investidores a ajustar as apostas para a taxa de juros no médio prazo, segundo Avery Shenfeld, economista-chefe da CIBC World Markets.

Ele apontou que as taxas de mercado sugerem que os juros nos Estados Unidos ficarão perto de 1,5% até pelo menos fevereiro de 2023. Este nível é inferior ao da inflação projetada pelo Fed – de 2,2% -, embora esteja relativamente próximo ao estimado pelo banco central.

Shenfeld atribui essa discrepância à tentativa, tanto do Fed quanto dos investidores, de embutir em seus cenários a possibilidade de efeitos econômicos negativos vindos da covid-19, o que ele considera um erro. “Nos anos à frente, as chances são de que estejamos juntos. Teremos reduzido nossos receios relacionados à covid”, afirmou.

Como isso afeta seus investimentos

A decisão do Fed é importante porque tanto a remoção dos estímulos à economia quanto a alta nos juros americanos são negativos para os preços das ações em geral. Na prática, ambos os fatores significam a mesma coisa: que vai ficar mais caro se endividar em dólar e, consequentemente, em outras moedas também.

Isso, na prática, pesa particularmente sobre o funcionamento das empresas, que em geral dependem de algum tipo de financiamento para funcionar. Além disso, também muda a dinâmica de investimentos na economia – a renda fixa para a oferecer retornos mais atraentes e constantes do que a renda variável.

Por último, juros mais altos nos Estados Unidos significam que o retorno oferecido por títulos de dívida americanos também ficará maior. Neste caso, ativos considerados relativamente mais arriscados, como os do Brasil e de outros países emergentes, perdem apelo junto aos investidores.

O BTG Pactual traçou três cenários possíveis para a decisão do Fed e listou as potenciais consequências de cada uma.

No primeiro, o banco central americano continuaria reduzindo as injeções de dinheiro no sistema financeiro em US$ 15 bilhões por mês e esperando apenas uma alta de juros em 2022. Esta decisão empurraria o dólar e as taxas de juros de curto prazo para baixo, além de impulsionar ações dos setores de tecnologia e de empresas que dependem mais de crescimento futuro. Seria a hipótese mais favorável ao Brasil.

O segundo cenário equivale ao consenso do mercado e prevê a aceleração do tapering para US$ 30 bilhões por mês, duas altas de juros em 2022 e sinais de preocupação com a inflação no comunicado do Fed. Isso faria o dólar e os juros subirem, impulsionaria ações de instituições financeiras, prejudicaria os papéis de tecnologia, mas seria neutro para países emergentes.

O terceiro cenário é praticamente igual ao segundo, mas com hipótese de três altas de juros no ano que vem. Neste caso, as consequências do segundo cenário seriam potencializadas e os preços de commodities também poderiam sofrer. A expectativa para os mercados emergentes é de aumento da volatilidade.

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