Ibovespa fecha fevereiro em alta de 4% com 13 recordes, fluxo estrangeiro recorde e Raízen (RAIZ4) despencando quase 40%

Fonte: Shutterstock/NikoNomad

Fevereiro foi um mês de contrastes na bolsa. De um lado, construtoras e exportadoras disparando. Do outro, Raízen em queda livre e Hapvida continuando sua longa agonia. No meio disso tudo, o dinheiro estrangeiro não parou de entrar, e o Ibovespa bateu 13 recordes.

O gringo não parou de comprar

A grande história de fevereiro não foi uma empresa nem um setor. Foi o dinheiro estrangeiro. Até o dia 25, investidores de fora já tinham despejado R$ 41,7 bilhões na bolsa brasileira em 2026, mais do que em todo o ano de 2025. Para quem acompanha o mercado há um tempo, sabe que esse tipo de fluxo é o que move as coisas de verdade: ele não escolhe ação, ele compra índice, e o índice vai junto.

O motivo é simples, ainda que o cenário global seja complicado: o Brasil ficou barato. Com o dólar pressionado, juros reais altos e valuations que fizeram os olhos dos gestores lá fora brilharem, o país virou destino favorito numa rodada global de diversificação. Estrategistas do JPMorgan chegaram a dizer que o que estava acontecendo com o fluxo para o Brasil não tinha comparação nem nos primeiros meses do ano, que são historicamente os mais fortes para entrada de capital externo.
O índice tocou os 191.490 pontos no fechamento do dia 24, o 13º recorde do ano. E terminou fevereiro com alta de 4,09%, mesmo depois de tropeçar no último pregão: na sexta-feira (27), o IPCA-15 veio bem acima do esperado (0,84% contra projeção de 0,57%), o exterior azedou com tensões geopolíticas, e o Ibovespa fechou em baixa de 1,16%, aos 188.787 pontos. Um final de mês que não combinou com o resto da história, mas que não apagou ela.


Maiores Altas do Ibovespa — Fevereiro 2026

MRVE3 · MRV · +26,89%

A MRV foi a grande surpresa do mês, quase 27% de alta num cenário em que a Selic ainda está em dois dígitos. A virada começou com a divulgação da prévia operacional do quarto trimestre, que mostrou geração de caixa melhor do que o mercado esperava. O BTG ficou positivamente surpreso com os números do Brasil, mesmo reconhecendo que a operação americana, a Resia, segue sendo o ponto de atenção. O JPMorgan já havia subido a recomendação para compra em dezembro, com preço-alvo de R$ 12, apostando na queda da Selic e numa possível virada política em outubro. Quem estava de olho nisso desde o começo do ano saiu bem. O papel saiu de R$ 7,72 em janeiro e cruzou os R$ 10 ao longo do mês.

SUZB3 · Suzano · +17,58%

A Suzano virou o mês com balanço do 4T25 acima das estimativas, o BTG disse que os números superaram as projeções em 10% e ainda anunciou reajuste de preço da celulose em todos os mercados globais, com alta de até US$ 50 por tonelada na Europa e nas Américas. Para quem gosta de exportadora com receita em dólar e geração de caixa forte, foi o tipo de notícia que faz a carteira sorrir. XP, Citi e Genial reiteraram compra. O Citi chegou a colocar preço-alvo em R$ 72. Com o papel rodando abaixo disso, o mercado entendeu o recado.

DIRR3 · Direcional · +16,99% e CURY3 · Cury · +13,92%

As construtoras de baixa renda continuaram na crista da onda. Direcional e Cury têm algo que os investidores buscam agora: exposição ao Minha Casa Minha Vida, um programa que não depende tanto do humor do crédito privado para funcionar. São papéis que costumam andar em bloco quando o setor imobiliário entra nas graças do mercado, e fevereiro foi exatamente isso. O JPMorgan manteve neutro para as duas por conta do valuation já esticado, 9 a 9,5 vezes o lucro estimado para 2026, mas o fluxo não ligou muito para isso.

VIVT3 · Vivo · +15,80% e TIMS3 · TIM · +13,78%

As teles foram uma das surpresas positivas de fevereiro. A Vivo divulgou o balanço do 4T25 no dia 25 com crescimento de receita e margens firmes. A TIM, que vinha numa trajetória consistente de expansão em pós-pagos, também agradou. São papéis que tendem a se beneficiar da queda de juros, estrutura de capital mais pesada e receita previsível, e o mercado foi antecipando esse movimento ao longo do mês.


Maiores Baixas do Ibovespa — Fevereiro 2026



RAIZ4 · Raízen · −38,83%

Se tem uma história de fevereiro que ninguém vai esquecer tão cedo, é a da Raízen. Quase 39% de queda num mês só. A empresa, que é a maior produtora de etanol do Brasil e une Cosan e Shell numa joint venture, estava acumulando problemas há algum tempo, mas o mês foi quando tudo veio à tona de vez.

O gatilho foi a confirmação de que a companhia contratou assessores financeiros e jurídicos para estudar maneiras de aliviar a dívida. No mercado, esse tipo de anúncio tem um significado bastante claro: a empresa está com dificuldade de honrar seus compromissos sozinha. Na sequência, veio o que todo mundo temia: as três maiores agências de rating do mundo: Fitch, S&P e Moody’s, retiraram o grau de investimento da Raízen ao mesmo tempo. Os bonds da companhia no exterior chegaram a ser negociados por 45 centavos por dólar, queda de quase 50% em uma semana. A dívida líquida bate R$ 53,4 bilhões, com quase 72% em moeda estrangeira. E a seca que prejudicou os canaviais em 2025 não ajudou em nada.

COGN3 · Cogna · −23,08%

A Cogna pagou o preço de ter subido demais. O papel vinha de mais de 130% de valorização nos 12 meses anteriores, uma das maiores altas do setor, e fevereiro foi o mês da conta. O mercado também ficou incomodado com a leitura dos resultados do 4T24: o lucro bilionário que a empresa divulgou incluía R$ 807 milhões em reversão de contingências fiscais e mudanças contábeis que tornaram os números difíceis de interpretar. BTG e Morgan Stanley pediram cautela. Sem clareza sobre o que se repete nos próximos trimestres, o investidor preferiu embolsar o lucro acumulado.

HAPV3 · Hapvida · −19,31%

A Hapvida já entrou em fevereiro com a corda no pescoço. A empresa que um dia valeu R$ 100 bilhões agora gira em torno de R$ 5 bilhões, e o mercado ainda não enxerga a luz no fim do túnel. Sinistralidade acima de 75%, fluxo de caixa negativo projetado para 2026 e dificuldade de crescer em São Paulo e Rio, justamente onde o plano de saúde tem mais margem. A Fitch rebaixou a nota de crédito da operadora em dezembro e projetou alavancagem acima de 2,8 vezes nos próximos dois anos. Não é uma crise de um trimestre, é um modelo de negócio sendo testado num ambiente que não perdoa.

PCAR3 · GPA · −19,79% e BEEF3 · Minerva · −15,67%

O GPA foi pesado: resultado do 4T25 com prejuízo maior do que o esperado e uma ressalva dos auditores sobre a capacidade da empresa de continuar operando, com R$ 1,2 bilhão em dívidas vencendo em 2026 e caixa apertado, o risco é real. Já a Minerva sofreu com revisões de recomendação de analistas que viram as margens espremidas entre custos agrícolas altos e uma concorrência que não dá moleza no setor de proteína animal.


O que vem aí

Março começa com a bolsa acumulando mais de 17% de alta no ano, muito além do que a maioria dos bancos havia projetado para o ano inteiro. O corte da Selic, esperado para a reunião do Copom em março, deve dar mais fôlego para os setores mais sensíveis a juros. O fluxo estrangeiro, por enquanto, não dá sinais de desaceleração.

O ponto de atenção no horizonte é o segundo semestre, quando o debate eleitoral deve começar a dominar o noticiário. Gestoras como a JGP já alertam para mais volatilidade a partir daí, o que não significa necessariamente queda, mas exige mais seletividade. Por ora, o mercado ainda está focado nos fundamentos, e eles têm sustentado o rali.

Para acompanhar mais notícias do mercado financeiro, baixe ou acesse o TradeMap.

Compartilhe:

Mais sobre:

Leia também:

Destaques da semana

Veja os principais eventos da semana e suas possíveis consequências: Segunda-feira (02/03) 06:00 – UE PMI IndustrialA S&P Global divulgará, às 06h00, os índices PMI

Mais lidas da semana

Uma newsletter quinzenal e gratuita que te atualiza em 5 minutos sobre as principais notícias do mercado financeiro.