Nos últimos dias, tivemos uma nova onda de volatilidades nos mercados internacionais. O que aconteceu, na prática, foi que os investidores ficaram mais cautelosos com a previsão da retomada do crescimento da economia global.
Nos Estados Unidos, apesar de os indicadores de emprego e atividade estarem relativamente alinhados com as expectativas de retomada, a inflação tem se mostrado muito mais resiliente do que o esperado inicialmente pela autoridade monetária do país, o Federal Reserve (Fed).
Os números têm indicado que o banco central americano terá mais trabalho para conseguir convergir o índice de preços para a meta de inflação nos próximos meses. Por isso, terá que prolongar o ciclo de alta na taxa de juros, aumentando o risco de recessão no médio prazo.
Por que o mercado está tão sensível a esse tema?
A principal ferramenta de combate à inflação é a política monetária. Isso quer dizer que, toda vez que a inflação sai do controle, o mercado cobra uma postura mais ativa do banco central. Essa atitude é demonstrada por meio da elevação da taxa básica de juros da economia.
Os Estados Unidos têm praticado uma taxa de juros muito baixa desde 2001, quando os ataques de 11 de setembro pressionaram o Fed a baixar juros para combater o risco de recessão que “pairava no ar” naquele momento.
A política de juros baixos levou os investidores institucionais a procurar títulos mais arriscados e esse foi o contexto para o nascimento da bolha dos títulos hipotecários subprime, origem da crise financeira de 2008.
Para evitar o colapso do sistema financeiro internacional, a instituição criou o famoso quantitative easing (QE). Por meio dele, o BC passou a comprar, do mercado, títulos públicos e principalmente privados.
Pode-se dizer que essa prática elevou a liquidez da economia americana para um patamar inédito, e, com isso, ampliou o risco de inflação.
Apesar de os valores dos ativos e imóveis terem ido à estratosfera, para a surpresa dos responsáveis pelo QE, os preços ao consumidor entre 2009 e 2019 não foram tão afetados, o que acabou permitindo a manutenção desse programa de recompra de títulos por um longo período.
O que mudou de 2019 para hoje?
Durante a pandemia de Covid-19, as sucessivas interrupções nas cadeias de suprimento e a necessidade da criação de auxílios emergenciais para atender a população que ficou sem trabalho acabaram sendo, entre outros fatores, responsáveis pela aceleração da inflação a partir de 2021.
Inicialmente, o Federal Reserve se reservou o direito de afirmar que esse súbito aumento dos preços era transitório e que a normalidade seria retomada a partir do momento que o mundo se recuperasse da pandemia.
Os dados fechados de 2021 colocaram uma pedra sobre esse cenário quando mostraram para o mercado que a inflação não estava dando sinais de desaceleração.
Em fevereiro deste ano, mais propriamente no dia 24, o planeta foi surpreendido pela invasão da Rússia na Ucrânia e o início de uma nova guerra que por ora não tem data para acabar.
Como tanto a Ucrânia quanto a Rússia possuem papéis relevantes no comércio internacional de energia e alimentos, a guerra, por si só, já foi suficiente para manter a aceleração dos preços, e por conseguinte pressionar os bancos centrais mundo afora a aumentarem as suas taxas básicas de juros.
O que fez os mercados azedarem?
De acordo com Neel Kashkari, o presidente do Fed de Minneapolis (EUA), o Federal Reserve pode não obter tanta ajuda quanto espera do alívio nas cadeias de abastecimento na luta para reduzir a inflação para a meta de 2%. Dados têm sinalizado que os consumidores continuam dispostos a gastar apesar dos preços mais altos.
Em economia, chamamos essa percepção de inércia inflacionária. Ela vem da ideia de que a partir de um certo ponto a inflação começa a se retroalimentar.
A leitura que o mercado tem feito desse contexto é que o Fed terá que ser muito mais agressivo na alta dos juros para controlar a inflação, e isso eleva de forma significativa o risco de recessão, ou estagflação, o maior medo do mercado nesse momento.
Leia também:
Diversificar e calibrar: dois conceitos-chave para uma carteira “ideal” de ações
Como devo rever minha carteira?
Os bancos centrais seguirão puxando as taxas básicas de juros para cima e o capital para investimentos ficará cada vez mais escasso. As bolsas de valores perderão fluxo e parte dos ativos de renda fixa terá valor reduzido devido à alta dos juros – os mercados de dívida internacionais são de títulos prefixados negativamente afetados pela elevação das taxas de juros.
Os investidores qualificados seguem tirando da estante livros empoeirados sobre investimentos em momentos de inflação e concentram suas apostas em economias mais seguras.
Nesse nível de juros, os investimentos de menor risco ficam interessantes e, entre eles, os produtos pós-fixados. Levando isso em consideração, o investidor pode melhorar a relação de risco/retorno da sua carteira adicionando esses papéis aos ativos que têm sofrido nos últimos meses.
Também vale ressaltar que a Bolsa precisa de fluxo financeiro para se recuperar e, nesse cenário de taxas elevadas mundo afora, esse fluxo pode demorar. A tese de que se caiu está barato também não é muito aceita em momentos de risco de recessão.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do TradeMap.