Gestores brasileiros de fundos de crédito e multimercados enxergam um otimismo exagerado por parte do mercado com a recuperação da economia global e afirmam que os bancos centrais ao redor do mundo deverão manter os juros em patamares elevados por mais tempo.
Essa extensão das taxas básicas, principalmente pelo Fed (Federal Reserve, o BC americano), deve se refletir em uma recessão econômica no médio prazo, o que os especialistas enxergam como necessário diante dos desafios para trazer a inflação para baixo.
Para Marcos Mollica, gestor do fundo de multimercados Opportunity, a avaliação do mercado sobre o movimento de alta dos juros pelo Fed está “extremamente benigna”, com analistas já prevendo corte dos juros a partir de março e abril do ano que vem.
“Acho isso precipitado. Na minha experiência, a inflação vai demorar para cair, e o Fed vai ter que subir os juros mais do que está na curva e manter elevado por mais tempo”, disse durante participação em um evento da Icatu Seguros na manhã desta quarta-feira (20).
A avaliação é semelhante ao prognóstico de André Raduan, gestor e sócio-fundador da Genoa Capital, que prevê uma inflação mais persistente nos Estados Unidos a partir do momento que a disseminação do índice fica mais evidente.
O gestor cita os números positivos no mercado de trabalho americano como evidência de que a maior economia do mundo ainda não apresenta sinais de arrefecimento, o que deve postergar a recessão gerada pelo aumento dos juros para um prazo maior do que o previsto.
“A probabilidade de recessão no curto prazo é baixa, mas é gigante no médio prazo” afirma. “Ainda estamos pessimistas e acreditamento que o Fed tem um longo trabalho a fazer.”
Citando o “ambiente desafiador” gerado pelas políticas monetárias e fiscais lançadas por diversos países para mitigar os efeitos da pandemia no ambiente econômico, Leandro Nogueira, diretor e gestor dos fundos de crédito do banco Bocom BBM, prevê que os juros americanos devam permanecer pressionados ao menos até 2024.
“A economia é muito cíclica. Passamos por um momento de estímulos, e agora, naturalmente, estamos precisando passar por um momento mais restrito”, explica. “Vamos ver inflação e juros mais altos por mais dois anos e depois convergindo para níveis mais ajustáveis.”
Fuga do risco continua
O recente clima de arrefecimento dos temores refletiu na recuperação de ativos de risco, inclusive das criptomoedas, e incidiu na melhora das Bolsas ao redor do mundo. Para os gestores, no entanto, o cenário ainda pede muita cautela, com distanciamento de opções mais arriscadas.
“Continuamos com viés negativo para ativos de risco em geral, como Bolsas e até commodities, com exceção de petróleo”, diz Mollica, do Opportunity. Ele também prevê dólar mais forte nesse clima de instabilidade.
Para Nogueira, a melhor estratégia ainda é buscar por empresas que estejam protegidas do cenário de inflação e juros altos, como companhias com balanços positivos e que não estejam alavancadas.
Em casos de empresas com balanços menos sólidos, o gestor recomenda sempre ter o olhar de curto prazo. “Também é bom evitar setores de construção civil e varejo, que são mais vulneráveis a alta de juros e a inflação”, afirma.
Juros altos também no Brasil
Ao comentar sobre os esforços do Banco Central em trazer o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para baixo, os gestores enxergam cenário semelhante ao internacional com juros mais altos e prolongados.
Atualmente, a Selic está em 13,25% ao ano. O consenso do mercado é por novo aumento na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), em agosto, para 13,75%.
Com as recentes pressões inflacionárias, começa a ficar cada vez mais forte, Raduan, da Genoa, afirma que o BC deverá estender a alta para terrenos ao redor de 14%.
Sem citar números, Nogueira, do Bocom, diz que a taxa básica brasileira também deverá se manter elevada por mais tempo do que o previsto. Se antes parte do mercado já previa cortes a partir de meados de 2023, o gestor coloca esse movimento em um campo de dúvidas.
“Considero que o Brasil vai ver ainda esse ano e no ano que vem juros relativamente altos. Talvez, no ano que vem, nós possamos ver o início da normalização dos juros”, afirma.
Eleições aumentam riscos ficais
Para os gestores, a proximidade do período eleitoral deve ser o principal ponto de volatilidade da economia brasileira, devido à falta de sinalização de compromisso fiscal pelos dois principais candidatos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL).
O constante desgaste das amarras fiscais por conta do atual governo já fazem as taxas do Tesouro Direto baterem recorde a partir do momento em que os investidores começam a cobrar prêmios maiores para investir no país.
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Na mesma linha, Raduan diz que as propostas fiscais apresentadas até o momento não têm boa receptividade no mercado por preverem a manutenção de gastos que foram aprovados como temporários, a exemplo da elevação do Auxílio Brasil, e sinalizações de mudanças no teto de gastos, a regra que limita o orçamento público à variação da inflação do ano anterior.
“Nosso problema é a dívida interna bruta muito elevada, e isso tem que ser endereçado de alguma forma. Com as duas propostas que estão na mesa, a conta não vai fechar”, ressalta.
O sócio- fundador da Genoa Capital também mencionou o crescente questionamento dos investidores sobre um possível processo de ruptura institucional ao término do pleito deste ano. Para ele, apesar de a situação ser um novo ponto de pressão, o risco de que ocorra é baixo.
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