Desde que bateu o recorde de US$ 67 mil em novembro de 2021, o Bitcoin (BTC) embarcou em uma espiral de queda e já perdeu quase 70% do seu valor.
Atualmente, a maior cripto do mercado é negociada na faixa de US$ 22 mil, e ao longo desse percurso chegou a tocar mínima de US$ 19 mil – menor preço desde o fim de 2020.
Se o derretimento assusta investidores de primeira viagem e reforça a tese de alto risco do mercado, entusiastas que já passaram por outras crises – e lucraram alto com o último período de ganhos – seguram suas posições em criptoativos, mesmo que elas sejam menores que no passado.
A redução dos investimentos em cripto ocorre tanto porque os investidores migraram para ativos mais tradicionais, como os títulos de renda fixa, como porque precisaram de liquidez para pagar contas e quitar dívidas.
É o caso de Jonas*, que começou a investir em 2011, quando o Bitcoin não valia mais do que algumas dezenas de dólares. O primeiro aporte foi de US$ 100, o que rendeu pouco mais de cinco unidades de BTC.
Ao longo da década seguinte, o número de Bitcoins na carteira foi multiplicando com os movimentos de alta e queda do mercado.
Em novembro do ano passado ao perceber que a cripto estava no seu pico, o investidor contava com 108 unidades na carteira, e se desfez de todas, totalizando aproximadamente US$ 7,2 milhões.
“Chegou em um ponto que estava claro que era o máximo. A minha opção foi liquidar tudo e começar de novo comprando aos poucos”, explica.
À época, os investimentos em criptoativos somavam quase 95% de todos os investimentos de Jonas. Hoje a parcela foi reduzida para 30%, em torno de R$ 100 mil, o equivalente a menos de uma unidade de Bitcoin.
A fatia, apesar de bastante reduzida em comparação a antes, é seis vezes maior que o limiar de 5% que é comumente sugerido por especialistas para os criptoativos.
Parte dos lucros de Jonas foi repassada para investimentos em renda fixa, considerados opções mais seguras e recomendadas em períodos de forte instabilidade econômica, como o atual.
O investidor também aproveitou parte dos milhões para a aquisição de imóveis, carros e participação em outros negócios.
“O mercado é um jogo em que para alguns ganharem, outros têm que perder. Geralmente quando se fica muito ambicioso e buscar ganhar sempre, o investidor acaba tendo épocas de muitas perdas”, diz. “Eu não quis participar mais disso porque já conheço o mercado.”
Estratégia de longo prazo
Leonardo* seguiu uma estratégia semelhante. Depois de possuir quase que a totalidade do portfólio em investimentos criptografados, o investidor reduziu gradativamente a exposição após as fortes altas registradas no ano passado.
O primeiro aporte em cripto foi em janeiro de 2018, período que o BTC perdia força após o primeiro episódio de forte valorização que elevou a moeda até US$ 19,6 mil em dezembro do ano anterior.
Quando Leonardo entrou no mercado, a cotação já havia arrefecido para US$ 15 mil, e despencou ainda mais nos dias seguintes, chegando ao patamar de US$ 6,8 mil em fevereiro daquele ano e reduzindo para US$ 3,2 mil em dezembro de 2018.
No primeiro ano de participação no mercado, o investidor já havia visto a cotação da moeda perder quase 80% do valor.
“Desde que eu comprei, só caiu, mas continuei aumentando a minha carteira com a tendência de baixa”, explica.
Mirando no longo prazo, o investidor manteve a aquisição regular até janeiro de 2020, quando a moeda estava na faixa de US$ 8,2 mil e apontava para uma tendência de alta.
A partir de janeiro de 2021, quando o BTC estava em torno de US$ 40 mil, Leonardo fez uma série de vendas até julho deste ano.
O investidor estima que tenha lucrado quase R$ 40 mil com as operações desde que começou a investir. O valor que ele possui investido em criptoativos hoje também é de aproximadamente R$ 40 mil, o que corresponde a 25% do portfólio atual.
Parte do dinheiro também foi reinvestido em opções mais seguras, como títulos bancários, e outra foi usada para financiar a empresa que o investidor administra.
Confiança na recuperação
Apesar das fatias menores nas carteiras, os dois investidores são enfáticos ao afirmar que acreditam em uma nova valorização da moeda.
A confiança no mercado é reflexo do histórico, que, apesar de mostrar forte volatilidade, sempre apontou para a valorização do Bitcoin ao longo do tempo.
“A maior parte dos investidores mais antigos tem essa confiança. O que me deixa mais inseguro é o atual momento que passamos”, explica Leonardo, citando o atual quadro de incertezas globais com a alta dos juros americanos e a guerra na Europa.
Para Jonas, o mercado ainda vai dar sinais de recuperação neste ano e pode subir até para o patamar de US$ 40 mil, caso consiga superar a atual barreira de resistência.
“Eu já vi cenários de quedas expressivas, e sempre teve recuperação. Essa conversa de o Bitcoin morrer é balela”, afirma o investidor.
Pior pode ter ficado para trás
O otimismo dos investidores encontra eco nas análises, ou ao menos em parte delas. Depois de segurar a faixa de US$ 20 mil em quase um mês, agentes do mercado começam a considerar que o pior momento para as criptomoedas tenha ficado para trás, apesar de ainda aconselharem cautela.
Em nota, Ed Moya, analista sênior de mercado da Oanda, afirmou que as criptos voltaram a ser atrativas a partir do momento em que as expectativas de altas agressivas dos juros americanos começaram a arrefecer no radar dos investidores.
“Se o Bitcoin continuar estável nas próximas duas semanas, o inverno cripto pode acabar”, afirmou.
Na mesma linha, Marcus Sotiriou, analista da GlobalBlock, destacou em comunicado que os investidores têm ignorado o recente noticiário negativo do universo cripto, como o pedido de recuperação judicial da Celsius Network, e buscado um olhar mais otimista para o cenário.
Em um tom mais cauteloso, Ayron Ferreira, analista chefe da Titanium Asset Management, diz que o cenário de recuperação ainda é incerto e que os níveis de volatilidade do mercado ainda estão elevados, “refletindo as dúvidas sobre uma possível recessão global”.
*Todos os nomes são fictícios para preservar a identidade dos investidores.
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