Vale (VALE3): Para analistas, vaivém de lockdowns na China deve impactar as margens

Como a China é um dos maiores importadores de minério do mundo, empresas dependentes de exportação podem sofrer com pausas na economia

Terminal de carga para transbordo de minério de ferro e carvão no Porto Zhuhai, na China. Foto: Shutterstock

Mesmo que a pandemia tenha arrefecido de forma significativa no mundo, a China ainda continua com sua política Covid zero. Na prática, poucos casos em algumas regiões já são suficientes para algumas províncias implementarem medidas restritivas e fecharem portos e outras instalações, por exemplo.

De março até o início de junho, Xangai, um dos centros financeiros mais importantes do país, ficou fechado por 65 dias, a fim de conter o avanço da doença na região. Passado esse momento, os mercados mundiais ficaram animados, no entanto, a alegria durou pouco. Alguns dias depois, outras regiões que haviam sinalizado fim das restrições voltaram atrás por descobrirem novas infecções por Covid-19.

Diante desse abre e fecha, não apenas a economia local é afetada, mas o mundo como um todo, já que o gigante asiático é um dos maiores importadores de algumas matérias-primas, como minério de ferro e aço. Com isso, empresas como Vale (VALE3) e o setor como um todo podem acabar se prejudicando com essas pausas na atividade.

“A China é um mercado muito importante para o mercado brasileiro. Com as atividades fechadas por lá, isso acaba prejudicando as exportadoras”, diz Mário Mariante, analista-chefe da Planner Corretora.

Segundo ele, os dados da balança comercial do dia 13 de junho já mostram uma queda nas exportações de minério para a China. “Do início do ano até a segunda semana de junho, o minério de ferro e seus concentrados recuaram 37,9% nas explorações, enquanto o minério de cobre e concentrados caiu 19,3% e o níquel recuou 100% na comparação anual”, destaca Mariante.

De janeiro a maio deste ano, a China foi responsável por 58% de todas as exportações de minério de ferro e seus concentrados do Brasil, de acordo com o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior).

A mais prejudicada

A Vale, que é uma das maiores mineradoras do mundo, deve ser uma das mais prejudicadas com os lockdowns recentes na China, uma vez que mais da metade do arrecada vem do país. No primeiro trimestre deste ano, dos US$ 10,8 bilhões totais de receita que a companhia teve, cerca de US$ 5,36 bilhões veio do gigante asiático.

Do total de 59 milhões de toneladas de minério de ferro e pelotas vendidas nos primeiros três meses de 2022, 33,5 milhões toneladas foram para a China.

Para Gustavo Akamine, analista da Constância Investimentos, esse momento da China pode prejudicar não só as empresas, mas também a economia brasileira.

“Nossa economia é extremamente dependente da chinesa, principalmente no caso da Vale, que tem uma exposição alta ao país. A maior parte do comércio global de minério de ferro é para suprir o mercado de aço na China”, explica o analista da Constância Investimentos.

Mercado preocupado

O analista da Constância Investimentos ressalta que o mercado está atento ao atual momento chinês. Se de um lado, a China faz de tudo para controlar os casos de Covid-19, do outro, possui metas de crescimento e de atividade econômica acima de 5%.

E uma das fontes de crescimento da China é o mercado imobiliário e de construção civil, altamente dependentes de commodities metálicas, principalmente o aço. Diante dessa dificuldade de manter a economia ativa, o analista acha difícil o gigante asiático atingir essa meta de crescimento.

O pessimismo em relação à China foi confirmado com a queda anual de 32,2% nas vendas de moradias no primeiro quadrimestre do ano, refletindo exatamente o momento de lockdowns no país. “Isso tem alguns efeitos ruins para a atividade e mexe com a cadeia produtiva como um todo”, avalia Akamine.

Essa queda nas vendas de moradias no país asiático aconteceu justamente no período em que as principais províncias estiveram fechadas, segundo dados do Escritório Nacional de Estatísticas (NBS, na sigla em inglês) da China. Esse resultado, divulgado no final de maio, mostrou piora em relação ao declínio de 25,6% observado no primeiro trimestre.

“A China já não cresce igual crescia antes”, afirma Mariante. Ele acredita que, no mercado de commodities, o único setor que ainda continua forte é o alimentar, já que tem “demanda e preço”.

O preço do minério de ferro

Nesta quarta-feira (22), a tonelada do minério de ferro, negociado na bolsa de commodities de Dalian caiu 5,96%, cotada a 709,50 iuanes, o equivalente a US$ 105. No início de junho, porém, a commodity chegou a bater patamares próximos a US$ 150 por tonelada e acabou recuando com as novas notícias de lockdowns.

Para os próximos meses, o analista-chefe da Planner Corretora vê o minério de ferro sendo negociado na faixa de US$ 135 a tonelada. “Com a China mais devagar, não vejo os preços atingindo os US$ 150 novamente, mas também não vejo espaço para mais recuos”.

Akamine, por sua vez, acredita que o preço ficará “acima dos US$ 130”. “Caso o preço suba mais do que isso, a China pode intervir para estabilizar”.

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