Fundos em metaverso: gestoras brasileiras apostam em nova fronteira de investimentos

Investidores podem escolher cestas expostas a projetos e empresas que ajudam a construir o sistema

Foto: Shutterstock

O metaverso entrou no radar dos investidores como a nova fronteira do mercado. De forma simples, o conceito, que muitos analistas chamam de tese, pode ser traduzido como a emulação da realidade em um ambiente virtual.

Para entusiastas da tecnologia, as possibilidades beiram o infinito e passam desde assistir a um espetáculo de dentro de casa com a mesma perspectiva que alguém da plateia até a compra e terrenos que existem apenas no mundo digital.

O assunto passou a receber maior atenção a partir de outubro do ano passado, quando o Facebook anunciou a mudança do seu nome para Meta. Mas a rede social de Mark Zuckerberg não é a única que vê no metaverso um futuro promissor.

Outros gigantes do mundo capitalista também foram atraídos pelo novo conceito e buscam diferentes formas de ganhar dinheiro com esse mercado. Além de empresas de tecnologia e entretenimento, como Apple e Nintendo, grandes corporações que não possuem uma ligação óbvia com o segmento também estão embarcando, desde a grife Ralph Lauren até a cervejaria Stella Artois.

Atentas a este crescente movimento, gestoras brasileiras se mobilizam para fazer parte do mercado. Diferentes fundos foram lançados nos últimos meses com exposições em plataformas que estão no núcleo de construção do metaverso, empresas que oferecem equipamentos para o uso da nova tecnologia e até de companhias que estão apostando na revolução.

A exchange de criptomoedas Hashdex estreou nesta sexta-feira (3) o META11, o seu primeiro fundo voltado para o metaverso listado na B3. A cesta é composta por nove plataformas que atuam diretamente na construção da nova tecnologia, mais uma parcela de 15% em Ethereum (ETH), a segunda criptomoeda com maior valor de capitalização.

“O fundo foi desenhado para refletir toda a cadeia de valor da indústria dos criptoativos. São aplicações bem diferentes, mas todas relacionadas à cultura digital”, afirma Samir Kerbage, CTO da Hashdex.

A organização do fundo foi iniciada há cerca de um ano e segue o índice CF Digital Culture Composite Index. O HASH11 conta com exposição em criptos nativas do mundo do metaverso, com maior participação nas plataformas Decentraland, The Sandbox e Axie Infinity, atuais referências de um mercado ainda bastante incipiente.

A escolha dos ativos, diz Kerbage, segue a estratégia de apostar em plataformas abertas e em quais qualquer desenvolvedor possa participar, ao contrário de opções onde o metaverso é controlado por apenas uma força, como o projeto desenvolvido pelo antigo Facebook.

“A nossa tese em metaverso é que as pessoas vão preferir produtos que emulem a nossa realidade, e não aqueles dominados por uma empresa específica”, afirma.

Também seguindo a tática de mirar apenas nas companhias que estão construindo o metaverso, a Investo, gestora brasileira focada em fundos de índices, lançou em abril deste ano o NFTS11, o primeiro ETF voltado à nova tecnologia na bolsa brasileira.

A cesta é composta por cinco opções, também com destaque para as plataformas Decentraland, The Sandbox e Axie Infinity, além da STEPN, uma espécie de rede social que remunera os participantes que fazem exercícios físicos, e ApeCoin, token ligado à famosa coleção de NFT Bored Ape Yacht Club.

“O metaverso é uma tendência que está dando todos os indícios de que veio para transformar o nosso mundo. Há muito para ser criado e que nós nem sabemos ainda”, diz Cauê Mançanares, CEO e confundador da Investo.

O NFTS11 tem como referência o índice MVIS CryptoCompare Media & Entertainment Leaders. De acordo com o gestor, o fundo traz mais segurança por concentrar empresas que possuem valor de mercado acima de US$ 1 bilhão e capacidade de liquidez diária na casa de US$ 25 milhões.

“Entramos no metaverso com um tipo de produto que é mais eficiente por ter um custo baixo e maior transparência, já que é um fundo negociado em bolsa”, explica.

Lançado em novembro do ano passado, o fundo temático em metaverso da Vitreo concentra opções de empresas e plataformas que de alguma forma estão vinculadas à nova tecnologia, além de uma fração alocada em criptoativos.

A cesta concentra 12 empresas e projetos listados nos mercados internacionais e no Ibovespa (via BDRs, que são recibos de ativos estrangeiros negociados na Bolsa) que atuam dentro do metaverso.

Além de Decentraland e Axie Infinity, o fundo possui parte de fabricantes de peças e equipamentos, como a Nvidia, além de companhias fora da área de tecnologia, mas que buscam se posicionar dentro do metaverso, a exemplo da Nike.

“É difícil em uma tese de investimento tão nova falar quem vão ser os vencedores daqui a cinco anos. Temos uma estratégia diversificada com quem está construindo pontas no varejo, na tecnologia e no desenvolvimento comercial”, diz George Wachsmann, CIO e sócio fundador da Vitreo.

Cautela e pensamento de longo prazo

A entrada das gestoras brasileiras em fundos de metaverso coincide com o momento de fuga dos investidores de ativos arriscados em meio ao aumento dos juros americanos, a falta de perspectiva para a resolução da guerra na Ucrânia e os impactos da volta de medidas de restrição na China.

O cenário desafiador se reflete no rendimento das opções. Desde a estreia até esta sexta-feira (3), o NFTS11 registra perda de 67,5%, enquanto a rentabilidade do fundo da Vitreo perdeu 53,37%.

Os gestores reconhecem os entraves que o atual cenário de aversão ao risco impõe, mas ressaltam que os investimentos no metaverso devem ser encarados como opções de longo prazo.

“O momento é desafiador para todas as classes de risco, com ações globais e criptos sofrendo bastante”, pontua Kerbage, da Hashdex.

Wachsmann, da Vitreo, também chama a atenção para a queda generalizada de ativos e ressalta que a tese do metaverso não sofreu abalos que justifiquem a perda de confiança no mercado.

“A guerra não mudou o cenário do metaverso. O que aconteceu foram reprecificações de ativos de risco no mundo todo pela mudança da política monetária para combater a inflação alta”, explica.

Para Mançanares, da Investo, os aportes em tecnologias criptografadas devem ser feitos para quem visa uma realização de até uma década, tempo pelo qual o mercado tende a se desenvolver a partir da “criatividade coletiva” das plataformas e programadores que estão entrando.

“Há uma perspectiva muito grande de um mercado que está na casa dos bilhões, mas que tem potencial de ir para trilhões. É algo que está só no começo”, diz.

A volatilidade implícita no mercado de criptoativos, que integra as plataformas do metaverso, devem inspirar muita cautela aos investidores. Para os gestores, assim como outros ativos de risco, a entrada no novo mercado deve ser feito de forma bastante conservadora e com apenas uma pequena fração do portfólio.

Compartilhe:

Leia também:

Destaques econômicos – 02 de abril

Nesta quarta (02), o calendário econômico apresenta importantes atualizações que podem influenciar os mercados. Confira os principais eventos e suas possíveis repercussões:   04:00 –

Mais lidas da semana

Uma newsletter quinzenal e gratuita que te atualiza em 5 minutos sobre as principais notícias do mercado financeiro.