Com a invasão da Ucrânia pela Rússia e o aumento das tensões entre o leste europeu e o Ocidente, o mercado tem vivido dias de incerteza e aflição, com as Bolsas caindo ao redor do mundo.
No entanto, para Renan Vieira, gestor e sócio-fundador da Taruá Capital, a rápida resposta dos Estados Unidos e da Europa, que têm mostrado agilidade ao impor sanções diante de qualquer sinal de avanço nas operações militares da Rússia, deve impedir que a aversão ao risco perdure nos mercados.
Assim, a visão do gestor é que o momento abre oportunidades de compra para ações brasileiras, que estão em patamares muito baixos de preço depois da desvalorização da Bolsa local no ano passado.
O risco, ele diz, é se a Rússia avançar novamente e houver uma omissão do Ocidente, sem novas retaliações.
Confira a entrevista completa a seguir:
Como o conflito entre a Rússia e a Ucrânia deve afetar a Bolsa brasileira?
A oportunidade é de compra, na minha opinião. Ontem o [Vladimir] Putin [presidente da Rússia] fez algo mais agressivo. E toda vez que ele fizer isso, tanto o Estados Unidos quanto os países da Europa vão aplicar sanções na Rússia. Quando Biden começou a falar ontem, o que aconteceu com o S&P 500? Saiu de 2,5% de queda para zerar. A nossa Bolsa aqui só não está no positivo porque Petrobras está sofrendo – os ativos locais, como os setores de consumo e shopping, que não têm nada a ver com Rússia e Ucrânia, estão subindo. Isso já vinha acontecendo nas últimas semanas. Aparece um estresse, o mercado realiza, mas, com as sanções, alguns ativos locais sobem.
E o que poderia piorar a situação?
Se a Rússia avança na Ucrânia e o mercado não vê nada prático em termos de sanções vindo da Europa e dos Estados Unidos. Isso criaria um problema grande no mercado, mas não é isso que estamos vendo. Agora, é óbvio que é um cenário ruim e que ninguém quer que isso avance. A Bolsa americana tem sofrido muito, assim como as Bolsas europeias. Claro que é um cenário de incerteza e de dúvidas. Mas a Bolsa brasileira já caiu. O ano de 2021 foi uma tragédia para nós. É por isso que, nas últimas semanas, sempre que tem um movimento mais agressivo da Rússia em relação à Ucrânia e os ativos sofrem, temos visto oportunidade de compra. É claro que, se esse cenário se prolongar por muito tempo e as coisas começarem a piorar, vamos ter um cenário bastante complicado para os mercados globais. Mas, na minha opinião, a tendência, se isso acontecer, é que os mercados internacionais sofram mais do que o nosso, por uma questão de valuation.
Uma aversão ao risco generalizada não pode prejudicar os emergentes?
Tem muita gente falando que o cenário é ruim para os emergentes, que nós já subimos muito, que a nossa moeda se valorizou… Eu concordo e discordo. A nossa moeda está valorizando neste ano porque nossos juros subiram muito mais do que os outros juros lá fora. Por uma questão matemática e de valuation. Foi uma moeda que sofreu muito no ano passado, abriu um carrego de juros muito grande, e agora está se beneficiando desse movimento, junto com o valuation das empresas brasileiras, que caiu muito ano passado e estão bem atrativas. Não podemos esquecer também que teve um rali do petróleo antes da Rússia e da Ucrânia, o que ajuda Petrobras e PetroRio. O minério de ferro também se valorizou bem neste ano e isso ajudou bastante a Vale. Obviamente, esse juros mais altos aqui beneficiam também os bancos brasileiros. Não por acaso, Bradesco e Itaú também estão muito bem no ano. É uma série de fatores que explica um pouco porque eu acho que tem oportunidade no mercado.
Em quais setores e empresas estão as maiores oportunidades?
Se o cenário acalmar, eu acho que os ativos locais, como shoppings, vestuário e o setor de energia elétrica devem performar bem. Por outro lado, eu acho que a Petrobras, que foi um bom hedge para os gestores nas últimas semanas, tende a ter performance inferior, porque acho que o petróleo recua. Se não houver um cenário mais calmo, todos os ativos ligados a petróleo tendem a performar melhor, e os outros ativos que mencionei, como varejo, consumo e energia elétrica, tendem a dar uma variada nos próximos dias. Além disso, se continuarmos vendo um cenário de estresse, acho que os investidores irão para ações mais defensivas, como as petrolíferas, e empresas de utilidades públicas, como Equatorial e CPFL, que não devem sofrer muito, porque são empresas que já estão sendo negociadas a um valuation muito atrativo, oferecem um retorno para o investidor muito grande nesse atual nível de preço, e não devem sofrer por causa da Rússia, que não tem nada a ver com eles.
E quais ativos podem sofrer por causa da Rússia?
Por exemplo, a BRF. O preço do trigo, que é o insumo que que a empresa usa, está subindo. Então a companhia vai sofrer, porque seu custo vai aumentar. O preço do alumínio também está explodindo, porque a Rússia é um grande produtor, e isso pesa, por exemplo, no custo da Ambev, que tem que fazer hedge com as latinhas de alumínio. Então algumas empresas realmente vão sofrer. E outras eu acho que se beneficiam, como a Petrobras e a PetroRio, com o petróleo mais alto. Então eu acho que tem um pouco de stock picking para fazer nesse mercado. É um mercado de gestão ativa.