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17 empresas deixaram o índice de sustentabilidade da B3; o que houve?

17 empresas deixaram o índice de sustentabilidade da B3; o que houve?

Na visão de um gestor ouvido pelo TradeMap, a debandada foi motivada por uma metodologia mais rígida da bolsa; entenda

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Em julho deste ano, a B3 anunciou uma nova metodologia do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), que passou a contar com temas ESG (sigla em inglês para as melhores práticas ambientais, sociais e de governança) prioritários para cada setor econômico.

A bolsa brasileira disse que, com a alteração, o índice agora considera dados externos sobre governança climática, além de expandir a base de relatórios e informações disponíveis para os investidores e empresas.

Na visão de Fabio Alperowitch, cofundador e gestor da Fama Investimentos, a metodologia anterior estava muito defasada, o que levava o ISE a ter uma carteira com empresas que estavam fora dos princípios de sustentabilidade, além de ser um processo pouco transparente.

“Precisava, de fato, ser modernizada. Eu vejo com bons olhos a mudança da metodologia, embora possa ser aprimorada. É melhor do que antes, mas ainda segue sendo inadequada, na minha opinião”, pontua.

→ Leia também: Desmatamento afeta reputação do país e crédito de empresas brasileiras, afirma Moody’s

O que mudou no ISE?

Segundo a B3, agora o índice está alinhado aos padrões internacionais de apresentação de resultados do Sustainability Accounting Standards Board (SASB), Global Reporting Initiative (GRI) e B-Lab.

Outra novidade é a parceria firmada com o CDP, que é uma organização que mapeia e incentiva a gestão do clima por parte de empresas listadas nas principais bolsas do mundo. Todo ano, o CDP divulga um ranking das organizações que adotam as melhores práticas na área de ESG.

Além disso, a bolsa brasileira também aponta que o ISE possui um acordo com o RepRisk, agência global de rating ESG. Agora essas ferramentas passam a ser consideradas no escopo de avaliação do indicador.

Antes, o conselho deliberativo do índice de sustentabilidade selecionava, no máximo, 40 empresas para compor a carteira, a partir de um questionário preenchido pelas companhias das 200 ações mais negociadas na bolsa.

“O novo ISE chega como um catalisador do tema ESG no Brasil, fortalecendo seu papel tanto como referência para investidores quanto na orientação às empresas”, afirma em nota Ana Buchaim, diretora de pessoas, marketing, comunicação e sustentabilidade da B3.

Para as analistas Giovanna Beneducci e Marcella Ungaretti, da XP Investimentos, a alteração na escolha de novos ativos é positiva, uma vez que contempla critérios mais específicos, contribuindo para questionários mais robustos. Elas também citam o incentivo de adesão das companhias à agenda ESG e o consequente aumento de credibilidade das empresas posicionadas no índice.

“Na nossa visão, além da atual onda de mudança impulsionada pela sociedade civil e pelos investidores, também acreditamos que as mudanças impostas pela regulamentação estão e terão, cada vez mais, um papel importante em direcionar as empresas a caminho de melhores práticas ESG”, afirmam, em relatório. “Embora haja claramente muito a ser feito em relação ao tema no Brasil, evoluções, como a feita pela B3, possuem um papel importante na evolução da agenda ESG no país”, dizem.

Quem entra e quem sai?

Com as novas mudanças na metodologia, as empresas elegíveis à participação no ISE de 2022 puderam preencher o questionário online até o dia 10 de setembro.

Em 1º de dezembro, a B3 divulgou a prévia da 17ª carteira que entrará em vigor a partir de 3 de janeiro. De 40 empresas na composição atual – com 46 ações –, o ISE 2022 foi reduzido para 34 companhias, com também 34 papéis de 15 setores.

As empresas que continuam fazendo parte da nova composição são: AES Brasil (AESB3), Americanas (AMER3), Bradesco (BBDC4), Banco do Brasil (BBSA3), BTG (BPAC11), BRF (BRFS3), CCR (CCRO3), Cemig (CMIG4), GPA (PCAR3), Cielo (CIEL3), Copel (CPLE6), Cosan (CSAN3), CPFL (CPFL3), Dexco (DXCO3), Ecorodovias (ECOR3), EDP (ENBR3), Fleury (FLRY3), Itaú Unibanco (ITUB4), Itaúsa (ITSA4), Klabin (KLBN11), Light (LIGT3), Lojas Renner (LREN3), Movida (MOVI3), MRV (MRVE3), Natura (NTCO3), Santander (SANB11), Suzano (SUZB3), Telefônica (VIVT4), Tim (TIMS3), Vibra (VBBR3) e Weg (WEGE3). Já as novas participantes são Braskem (BRKM5), Raia Drogasil (RADL3) e Rumo (RAIL3).

E as companhias que saíram foram Assaí (ASAI3), Eletrobras (ELET3; ELET6), Engie (EGIE3), Getnet (GETT11), Lojas Americanas (LAME3; LAME4), M. Dias Branco (MDIA3), Marfrig (MRFG3), Minerva (BEEF3), Neoenergia (NEOE3) e Petrobras (PETR3; PETR4), além dos papéis ordinários do Bradesco, Cemig, Copel e Itaú.

Não agradou

Para Alperowitch, da Fama, a debandada de 17 papéis do índice está diretamente ligada à nova metodologia do ISE, que é mais restritiva que a anterior.

“Certamente isso trouxe alguma consequência no número de membros que não se adequaram, mas segue permitindo empresas pouco comprometidas com sustentabilidade”, complementa.

Para o gestor, um dos exemplos de empresas das que permanecem e deveriam sair é a Braskem. “Acho um absurdo. A questão da Braskem é muito expressiva. Justamente porque ocorreu uma série de problemas envolvendo a empresa. A companhia afundou um bairro, está na cadeia do plástico e diretamente ligada a combustíveis fósseis, tem multa ambiental… É bastante emblemático”.

Em setembro deste ano, a petroquímica foi multada pela Companhia Ambiental de São Paulo (Cetesb) por vazamento de poluentes em uma unidade no Polo Petroquímico no ABC, em Santo André, além de ter outros problemas ambientais envolvendo Maceió, capital de Alagoas.

Outro ponto levantado por Alperowitch é o fato de a Braskem já ter sido associada à Lava-Jato, investigação de desvio e lavagem de dinheiro realizada pela Polícia Federal.

“Acho um problema aceitar empresa envolvida na Lava-Jato na carteira de um índice. Temos que levar em consideração que o ISE tem uma responsabilidade muito grande, já que as pessoas mais leigas – que não sabem distinguir uma empresa sustentável de outra não sustentável – vão deduzir que as companhias da carteira são empresas responsáveis. Existe uma questão educativa por trás. O rigor deveria ser maior”, critica.

Acompanhe a cotação em tempo real das empresas pelo TradeMap

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