O Banco Central tem como missão assegurar a estabilidade do poder de compra da moeda e um sistema financeiro sólido e eficiente. E para cumprir tais objetivos, a instituição, por meio do Comitê de Política Monetária (Copom), utiliza a Selic, a taxa básica de juros, como um dos seus principais instrumentos.
Os juros interferem diretamente nos investimentos, sobretudo nos de renda fixa. Se em ascensão, aumentam os prêmios pagos por CDBs, LCIs, LCAs, CRIs, CRAs e debêntures, tornando-os mais atrativos, muitas vezes, do que os de renda variável.
O BC eleva a Selic principalmente para controlar a inflação. O aumento da taxa implica juros maiores em empréstimos e financiamentos no país.
Atualmente, estamos diante de um ciclo de alta da taxa Selic, que passou de 2%, no início do 2021, para 10,75%, no momento que escrevo este artigo, início de março. Com isso, houve um aumento das rentabilidades de investimentos de renda fixa, fazendo com que investidores passassem a analisar com mais interesse essa opção.
Guerra da Ucrânia
No cenário atual, além de uma taxa Selic em elevação para frear a alta do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), vimos surgir no contexto econômico e geopolítico internacional um novo acontecimento: a guerra da Ucrânia.
O conflito vai influenciar diretamente os índices inflacionários de 2022 (e talvez os de 2023). Com isso, o ciclo atual da Selic deverá se prolongar.
Mas por que iremos sentir esse impacto na inflação? O conflito no Leste Europeu fez o Ocidente adotar sanções econômicas contra a Rússia, como a expulsão dos bancos do país do sistema Swift de transferências internacionais entre instituições financeiras, bem como o rompimento de relações comerciais.
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A Rússia, no entanto, está entre os principais exportadores mundiais de petróleo, gás natural, e tanto ela quanto a Ucrânia são grandes produtores de commodities como trigo e milho.
Em virtude disso, a deflagração da guerra e a adoção de sanções econômicas tiveram repercussão direta e praticamente imediata na cotação internacional desses produtos. Haveria uma fragilização no fornecimento regular desses bens no mercado global.
Em menos de uma semana, por exemplo, o preço do barril de petróleo no mercado internacional subiu de US$ 90,00 para mais de US$ 110,00, elevação essa que impacta o preço de combustíveis e derivados de petróleo em todo o planeta.
Commodities como trigo e milho, mais caras também vão afetar o preço de alimentos. Tudo isso vai puxar os nossos índices de inflação em 2022.
E essa “novela” você já conhece: índices inflacionários em alta podem pressionar mais ainda a elevação da Selic. Por um lado, isso traz consequências ruins para a economia, freando o consumo, o faturamento de empresas e o crescimento do país. Por outro, gera novas e boas oportunidades na renda fixa, com o incremento nos juros pagos por esses investimentos como o Tesouro Direito, CDBs, LCIs e por aí vai.
Fora que um cenário externo tão turbulento e incerto, aumenta a busca pelos investimentos mais seguros de renda fixa, como é o caso dos títulos do Tesouro.
Cautela
Mas, como ainda não sabemos por quanto tempo esse conflito durará e qual será o efetivo impacto dele sobre a economia, o momento é de muita cautela.
O ideal é priorizar os investimentos de renda fixa pós-fixados (atrelados à Selic, CDI e IPCA), que têm a capacidade de reajustar suas rentabilidades caso uma inflação fora do controle seja constatada nos próximos meses.
No prefixado, ao contrário dos investimentos pós-fixados, você compra o título com base na taxa em vigor no mercado. Caso a inflação aumente muito durante o período anterior ao vencimento do ativo, existe o risco de ver o seu dinheiro render pouco ou menos que o índice de preços.
Se no futuro os preços se estabilizarem, ou até mesmo a guerra se encerrar em pouco tempo, quem sabe será o momento de voltar a olhar com confiança e otimismo para a renda fixa prefixada.
Vamos acompanhar o que deve acontecer nos próximos meses!