Felipe Vella

Analista de valores mobiliários CNPI-T da Ativa. Focado em day trade de futuro, atua como trader há mais de dez anos.

O que fazer com seu investimento em novo ‘inverno’ dos criptoativos?

Um moeda com o símbolo do Bitcoin enterrada em um bloco de gelo

Foto: Shutterstock

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Assim como na série “Game of Thrones”, os personagens principais morriam de medo do grande inverno, que traria consigo os White Walkers. No mundo cripto, o que assusta é o chamado inverno cripto, da mesma o mercado tradicional tem o “Bear market”, que traz consigo a imensa queda do mercado.

O Bitcoin (BTC) já cai cerca de 70% desde sua máxima histórica, de US$ 69 mil, alcançada em novembro passado.

O mercado vive um momento de pânico, com queda acentuada do Bitcoin, que arrasta toda a classe de criptoativos consigo. Isso sem contar casos como o da Terra Luna, em que dezenas de bilhões de dólares foram perdidos em questão de dias, e projetos que eram tidos como sólidos havia meses podem vir a desaparecer antes do próximo ciclo de alta.

Como qualquer ativo de renda variável, é comum que correções ocorram após grandes ciclos de alta e quando as quedas são muito fortes.

Se você ainda não sabe o que significa esse termo, se comprou Bitcoin ou algum outro criptoativo perto das máximas ou se você quer saber se essa é uma boa oportunidade de compra neste segmento, fica atento ao que vou contar.

Halving

O inverno cripto costuma ocorrer após o halving do BTC. A cada 210 mil blocos minerados, acontece esse processo, por meio do qual a quantidade do ativos criados cai pela metade.

Aqui cabe explicar que o número de bitcoins criados (recompensa para o minerador) vai à metade a cada bloco minerado, e não devido ao tempo de mineração.

O tempo de mineração é sempre de dez minutos aproximadamente. Por isso, sabemos que o halving ocorre a cada quatro anos. Considerando o tempo entre os blocos, o processo ocorre a cada 210 mil blocos, o que resulta em média nesse período de quatro anos.

A redução do número de bitcoins foi definida no código do protocolo, no momento da criação do ativo, o que o tornou escasso.

Esse processo aconteceu pela primeira vez em novembro de 2012, forçando assim um ciclo de alta. Na ocasião, o BTC saiu de US$ 13 para US$ 1.150 em pouco mais de um ano.

Logo após o halving, a demanda continua constante. Isso faz o ativo (e a classe como um todo) se apreciar. E como o mercado é sempre irracional, normalmente o preço acaba esticando demais.

Com isso, muitos investidores bem-posicionados optam pela venda para exercer lucro. Inicia-se, assim, um ciclo de baixa. 

O movimento, porém, não significa que é[seja a hora de esquecer dos criptoativos. Muitas oportunidades ainda podem estar por vir.


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Este inverno cripto é diferente?

Mas, como nem tudo são flores, em dezembro de 2013, ocorreu o primeiro ciclo de perdas agudas no mercado cripto. O Bitcoin caiu cerca de 90%, chegando próximo a US$ 150 em janeiro de 2015, pouco mais de um ano depois.

Após esse período, o ativo passou cerca de um ano e meio de lado, e, na sequência, demorou mais de 12 meses para conseguir romper a barreira dos US$ 1.150.  

Outro grande inverno cripto aconteceu após o halving de 2016, quando o BTC entrou em um ciclo de alta em que saiu de US$ 1 mil em dezembro daquele ano para próximo dos US$ 20 mil dólares em dezembro de 2017. Após as máximas o ativo caiu mais de 85% chegando as mínimas de cerca de US$ 3 mil. 

Coincidência ou não, o último halving do Bitcoin aconteceu ao fim do ano de 2020, em que o ativo estava cotado próximo aos US$ 15 mil e chegou a bater as máximas históricas próximo aos US$ 70 mil um ano depois. 

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Veja que o segmento já foi dado como morto diversas vezes, caindo 50%, 80% e até 90%. Mesmo assim, continuou se apreciando ao longo do tempo.  

Faço uma ressalva: os ciclos de baixa afastam os especuladores, que buscam apenas o resultado de curto prazo.

Outro ponto positivo é que o inverno cripto ajuda a deixar mais claro quais serão as blockchains sustentáveis, das diversas criadas, no longo prazo. 

Os adeptos à tese dos criptoativos, e que entendem que os fundamentos não mudaram, até preferem esperar para comprar o ativo mais barato e segurar para quando o sol voltar a brilhar. 

O que pode mudar?

O contexto macroeconômico tem sido protagonista no mercado de renda variável global, e não seria diferente com criptoativos. As incertezas seguem grandes, sobretudo no curto prazo.  

O quadro geopolítico, com a guerra da Ucrânia e a inflação global, deve continuar pressionando a alta dos juros ao redor do mundo, o que tira a atratividade dos mercados de renda variável. Em cenários de incerteza, a maior parte dos aportes vai para ativos mais seguros e menos voláteis, o que não é o caso das criptomoedas.

Além disso, a criação de instrumentos de criptoativos voltados para o mercado tradicional (como ETFs – Exchanged-Traded Funds, futuros e opções) fez a correlação do Bitcoin e demais  investimentos, em especial os integrantes da Nasdaq, bolsa de valores de tecnologia americana, se tornar cada vez maior, chegando a um pico de 0,94 (entre 0 e 1).

A correlação entre BTC e Nasdaq atingiu esse patamar no “time frame” semanal entre os dias 13 e 17 de junho de 2022. A correlação está se mantendo ainda maior, em 0,95, mais ainda não podemos levar o número em consideração, pois a semana está apenas começando.

Isso mostra o quanto o mercado de criptoativos está correlacionado com o tradicional. E as notícias não são boas para este último. 

Será que, com a continuidade da queda do mercado tradicional e consequentemente da Nasdaq, o Bitcoin e mundo cripto continuarão caindo, ou essa correlação acabará quando os fundamentos deste mercado falarem mais alto? 

Devo comprar mais ou vender? 

Em primeiro lugar, você deve verificar se não está muito exposto a essa classe de ativos respondendo a seguinte pergunta: “Eu vou dormir tranquilo se o Bitcoin cair 90%?” Porque, no pior cenário, é isso que pode acontecer. A fatia da sua carteira alocada em cripto pode virar pó. Se isso não te assusta, muito bem.  

Lembre-se da grande máxima do mercado “Nada está tão barato que não possa ficar mais barato ainda”. Então não saia comprando mais BTC (ou outro criptoativo) só porque caiu demais. Respeite seu perfil de investidor e a alocação máxima dessa classe de ativos que você definiu. 

Uma das estratégias interessantes de se pensar em um inverno cripto é manter grande parte do seu capital em caixa e esperar um bom momento para retornar a aportar.

No mercado tradicional, você mantém esse valor em conta na sua corretora ou em seu banco. No mercado cripto você permanece com a posição em sua carteira em stable coins (moedas estáveis como USDC, USDT e DAI).

Aqui vai uma dica: certifique-se de que sua stable coin seja lastreada em ativos reais para que não aconteça o mesmo que o ocorrido com quem tinha seu dinheiro em UST (stable coin do ecossistema Terra-Luna), que viu sua posição virar pó em uma semana. 

Enfim, assim como em qualquer mercado de renda variável, o inverno cripto é uma realidade que não pode ser evitada. Nenhum ativo sobe em linha reta para sempre.

Se este é seu primeiro inverno cripto, mantenha seu dinheiro em caixa, como citei, e não faça compras que não estejam no seu perfil. Aproveite para estudar e aprender mais sobre essa classe de ativos e aguarde novos momentos de aquisição. Afinal você vai querer estar pronto para aproveitar o calor que virá no próximo ciclo de alta. 

 

*As opiniões, informações e eventuais recomendações que constem dos artigos publicados pela Agência TradeMap são de inteira responsabilidade de cada um dos articulistas. Os textos não refletem necessariamente as posições do TradeMap ou de seus controladores.

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