Luís Menon José

Economista da gestora Garde Asset Management. Graduado e mestre em Economia pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP).

O economista também possui especialização em macroeconomia e estatística. Foi subsecretário de comércio e serviço do Ministério da Economia entre 2019/2020. Sócio Consultor da Scopus Consultoria, Análise e Pesquisa.

Fim de jogo para altas da Selic ou teremos prorrogação?

Moeda de 1 real sobre tela de gráfico com a imagem de nota de real ao fundo.

Foto: Shutterstock

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Em sua última reunião em maio, o Copom, Comitê de Política Monetária do Banco Central, havia sido bastante explícito sobre a intenção de reduzir o ritmo de aumento de juros em junho. Esse indicativo encontrava abrigo na justificativa do nível da Selic, que foi elevada de 2% no auge da pandemia para 12,75% em pouco mais de um ano, no encontro mais recente.

O patamar atual da taxa básica de juros, sem dúvida, é bastante restritivo para a atividade econômica brasileira. Nesse sentido, seria recomendável maior prudência nos movimentos adicionais de aperto monetário. Caso contrário, o risco é o de se ampliar demasiadamente os custos sociais, por meio de uma recessão que tenha impacto significativo sobre o mercado de trabalho.

Dada a sinalização ocorrida na última reunião, parece não existir dúvida quanto aos rumos da política monetária no curtíssimo prazo. O Copom elevará a taxa juros para 13,25% nesta quarta-feira.

Consequentemente, a questão relevante diz respeito aos próximos passos da política monetária e a estratégia que será assumida pelo Copom neste momento de final de ciclo de aperto monetário. O porém refere-se também ao fato de a inflação corrente continuar a surpreender negativamente em termos de magnitude e composição.

Alta globalizada

Se analisarmos o período de intervalo entre reuniões de banco centrais, vemos que a inflação no âmbito internacional seguiu atingindo níveis sem precedentes nas  últimas décadas. Nos EUA, por exemplo, o dado mais recente sobre a alta de preços, o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês), apontou um aumento de 1% em maio, atingindo impressionantes 8,6% em 12 meses.

Trata-se da maior marca nessa base de comparação desde dezembro de 1981. Em resposta à contínua deterioração da inflação, o Federal Reserve, o banco central americano, subirá provavelmente a taxa de juros em 0,75 ponto percentual na reunião desta quarta-feira (15). Isso ocorrerá tendo em vista que muitos dos seus membros já sublinharam a necessidade de se conduzir a taxa de juros americanos rapidamente para acima do nível neutro.

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No último mês, dentre os 20 principais bancos centrais do mundo que tomaram decisões de política monetária, apenas a China cortou juros, enquanto outros 16 subiram suas taxas-base.

Mesmo o Banco Central Europeu, que ainda não elevou o juro da zona do euro, sinalizou que deve fazê-lo em julho e, mais fortemente, em setembro.

Entre as principais causas de tais movimentos destaca-se:

1 – A dinâmica dos preços das principais commodities, com trajetórias de elevação praticamente ininterruptas nos últimos dois anos, situando-se em níveis muito acima dos observados no pré-pandemia.

2 – A aceleração dos preços de serviços, que ficaram defasados durante a pandemia.

3 – A rápida retomada do consumo de bens diante dos elevados estímulos fiscais e monetários.

E como isso nos afeta?

A exemplo da economia internacional, a inflação no Brasil não dá sinais de alívio. Apesar da desaceleração do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) em maio na comparação com abril, o qualitativo da inflação permanece desanimador, com a difusão (percentual de itens do IPCA que apresenta elevação de preço no período) acima de 70%.

Além disso, as diversas medidas de núcleos de inflação – que busca captar a tendência mais geral da inflação para além do curto prazo – continuam acelerando na comparação com o mês anterior. No acumulado de 12 meses, chegamos ao maior valor para a média dos núcleos de inflação desde 2003.

Redução de impostos (e de receitas)

De modo a reduzir o impacto da pressão inflacionária sobre o bolso do consumidor brasileiro, o governo lançou mão de um expediente pouco usual, que consiste em reduzir os impostos incidentes sobre combustíveis e outros itens de energia no curto prazo.

O conjunto das medidas propostas, formalizadas no PLP 18/2022 e na PEC 16/2022, pode representar uma redução na inflação de 2,5 pontos percentuais a partir do início do segundo semestre deste ano. Em contrapartida, as menores alíquotas dos impostos serão acompanhadas de perdas de receitas de R$ 35 bilhões para a União e R$ 30 bilhões para Estados e Municípios, de acordo com nossas estimativas.

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Além de uma piora importante na já fragilizada situação fiscal do país, o corte de imposto tem prazo validade, já que parte das alíquotas deve ser majorada. Parte das alíquotas devem ser majoradas no ano que vem, aumentando o IPCA em 0,7 ponto percentual.

Essa alta ocorreria exatamente no horizonte relevante para política monetária, período no qual as expectativas do mercado já se encontram bem acima da meta do Banco Central.

Considerando a piora do balanço de risco, com cenário internacional desafiador e inflação local mais persistente, o Banco Central se encontra em situação complexa para decretar o fim do ciclo de juros.

Apesar do nível já bastante restritivo da Selic, é provável, portanto, que o Copom deixe a porta aberta e não descarte um ajuste adicional de mesma magnitude na sua próxima reunião, em agosto.

 

*As opiniões, informações e eventuais recomendações que constem dos artigos publicados pela Agência TradeMap são de inteira responsabilidade de cada um dos articulistas. Os textos não refletem necessariamente as posições do TradeMap ou de seus controladores.

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