Colunista Jefferson Mariano

Jefferson Mariano

Doutor em desenvolvimento econômico pela Unicamp, mestre em econômica política pela PUC-SP, professor de economia na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, e analista socioeconômico do IBGE. Professor de economia na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, e analista socioeconômico do IBGE.

O economista também possui especialização em macroeconomia e estatística. Foi subsecretário de comércio e serviço do Ministério da Economia entre 2019/2020. Sócio Consultor da Scopus Consultoria, Análise e Pesquisa.

Preços vão tropeçar em julho e Brasil terá deflação: o que isso significa?

Placas de direção com os nomes deflation e inflation em sentidos opostos.

Foto: Shutterstock

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A inflação é um fenômeno sempre presente no cotidiano da população brasileira e, especialmente nos últimos meses, tem sido uma preocupação constante. Apesar da política de metas de inflação, o governo não as cumpriu em 2015 e 2021, e é pouco provável que consiga alcançá-las em 2022.

No primeiro semestre, a alta de preços soma 5,49%, patamar acima do limite de 5% estabelecido para todo este ano no regime de metas que devem ser cumpridas pelo Banco Central. Em 12 meses, a inflação acumulada chega a 11,89%, já com o dado referente a junho.

De modo geral, os consumidores têm sempre a percepção de que seu custo de vida é muito superior aos índices de inflação. De fato, para a maior parcela da população essa premissa pode ser verdadeira. Ocorre que a inflação é calculada a partir da média ponderada da variação dos preços praticados na economia.

E o que isso significa?

Significa que é necessário observar o peso de cada item consumido pelas famílias para posteriormente incluir a variação dos preços na média. No caso de famílias de menor poder aquisitivo, itens básicos, especialmente do grupo alimentação, têm maior peso na cesta em comparação com famílias de maior poder aquisitivo.

Por exemplo, no caso do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) que considera os produtos consumidos por famílias de até 40 salários-mínimos o grupo alimentação tem o peso de 21,2%. Por outro lado, no INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) que considera o consumo de famílias de até cinco salários-mínimos o peso da alimentação corresponde a 24,1%.

Diferença regionais

Outro elemento importante nos índices que apuram a inflação diz respeito às diferenças regionais. Existem produtos muito importantes em algumas regiões e pouco expressivos em outras. No Norte, os peixes de água doce têm um peso mais elevado no consumo do que em outras regiões do país. E é necessário também observar os locais de compra. Há diferenças em realizar comprar em grandes redes ou no comércio local.

Nos últimos meses, um dos elementos que vinha contribuindo para o processo inflacionário era o aumento dos preços de combustíveis. A legislação PLP 80/2022 estabeleceu limites em relação à incidência do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), obrigando os estados a reduzirem as alíquotas destes produtos.

Desse modo, a partir da diminuição das alíquotas, foi possível observar a queda dos preços dos combustíveis. Esse movimento já deve ser notado na próxima divulgação do IPCA -15, na última semana de julho. Como a lei foi aprovada no final de junho, os efeitos desta alteração devem aparecer ao longo deste mês.

Com isso, é possível sinalizar para julho uma possível deflação, algo inusitado para a economia brasileira. Novamente, para muitos consumidores é possível que tal percepção não se verifique uma vez que em muitos outros itens ainda se observem variações positivas nos preços.

Mas por que então a variação dos preços dos combustíveis pode levar à deflação?

Como destacado, para a apuração da inflação deve-se observar os pesos de cada item e, desse modo, calcular o impacto do produto no índice. De cerca de 450 itens que são considerados para o cálculo da inflação, a gasolina tem um peso de 6,8%. A título de comparação, o arroz e o feijão juntos não chegam a 1%. Por sua vez, o grupo transporte tem um peso de 22% no total da inflação e o combustível é o principal item na composição dos custos deste setor.

Por outro lado, a deflação pode ser um problema?

Claro que, na percepção dos consumidores, é sempre interessante uma queda geral nos preços, especialmente quando se observa recuo no rendimento real dos trabalhadores, como vem sendo divulgado sistematicamente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e na Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua.

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No entanto, assim como uma inflação elevada não é desejável, um movimento de deflação pode ser prejudicial para vários setores da atividade econômica. Caso seja verificado um cenário deflacionário, no momento de realização, ou seja, de colocar os seus produtos no mercado, as empresas vão obter preços menores do que haviam planejado. Isso significa obtenção de receita menor para cobrir os custos de produção.

No caso de investimentos nos quais os rendimentos decorrem da variação do IPCA, o resultado é a ocorrência de variações negativas ou próximo de zero. Na prática seria como se os valores obtidos de um investimento fossem inferiores aos valores aplicados. De tal modo que seria mais vantajoso deixar o dinheiro sob o colchão.

Desta maneira, percebemos que o movimento deflacionário pode levar a redução dos investimentos e ao entesouramento (guardar recursos). Ou seja, os agentes econômicos ficam reticentes em realizar investimentos e optam pela liquidez, a disponibilidade dos recursos. O risco real de um processo de deflação é a redução do nível de produção e o consequente desemprego.

Em termos históricos o Japão é um exemplo de país que sofreu o processo deflacionário. O fenômeno ocorreu no início da década de 1990 e tem se repetido nos últimos anos. O governo, nessas circunstâncias, tende a promover reduções nas taxas de juros com intuito de estimular o consumo. No país, a deflação decorre de uma combinação de elementos culturais e estagnação na evolução dos rendimentos do trabalho.

Efeito pontual

É claro que, no caso da economia brasileira, o movimento deve ser pontual, circunscrito ao mês de julho. Depois da queda vista nos combustíveis e o seu impacto sobre as demais cadeias produtivas, deve ocorrer um processo de estabilização dos preços. No médio prazo deve contribuir para uma inflação acumulada no ano um pouco inferior ao que se esperava pelo menos até início do mês passado.

Vale destacar ainda que foi isolado apenas um elemento relacionado ao comportamento dos preços dos combustíveis: os impostos. Ou seja, não ocorreu nenhuma alteração significativa no tocante à política de composição de preços por parte da Petrobras, por exemplo. Isto significa que a queda dos preços dos combustíveis (inclusive o do gás de cozinha) possa ser neutralizada no médio prazo por novos aumentos. Tudo dependerá das alterações que ocorram no comportamento dos preços do petróleo no cenário internacional.

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