Ibovespa no melhor janeiro em décadas – veja as ações que mais se destacaram

Fonte: Shutterstock/casa.da.photo

Janeiro de 2026 entrou para a história do mercado brasileiro. O Ibovespa registrou valorização de 12,56% no mês, configurando o melhor janeiro em cerca de duas décadas e o desempenho mensal mais forte desde novembro de 2020. Além disso, foi a maior alta mensal em pontos já observada no índice, com ganho de 20.220 pontos. O principal motor desse movimento foi o fluxo de capital estrangeiro.

Até o dia 28, investidores externos já acumulam saldo positivo de aproximadamente R$ 23,2 bilhões na B3, valor próximo de todo o ingresso observado ao longo de 2025. Esse volume reflete uma rotação global de portfólios que passou a favorecer mercados emergentes, em meio ao aumento das incertezas geopolíticas e comerciais envolvendo os Estados Unidos. Nesse contexto, o Brasil ganhou atratividade relativa por apresentar menor exposição direta a parte desses riscos e por oferecer juros ainda elevados em termos reais.

No exterior, a decisão do Federal Reserve de manter os juros entre 3,50% e 3,75% reforçou a percepção de estabilidade monetária nos Estados Unidos. A economia americana segue em expansão, mas a inflação ainda roda acima da meta de 2%, o que limita movimentos mais agressivos de flexibilização. Esse equilíbrio entre crescimento moderado e inflação resistente sustenta uma postura de cautela por parte do Fed e influencia diretamente o comportamento dos fluxos globais de investimento.

No cenário doméstico, o Banco Central manteve a Selic em 15,00% ao ano, mas indicou possibilidade de cortes graduais ao longo do ano diante da desaceleração da inflação. Mesmo assim, o mercado já projeta o início de cortes graduais a partir de março, com reduções moderadas e uma Selic próxima de 12% ao fim do ano, sinalizando um processo lento e dependente da evolução dos dados.

Entre as principais altas do mês, se destacaram:

Cogna (COGN3): (+43,99%)

A Cogna liderou as altas do Ibovespa impulsionada pela melhora consistente dos seus fundamentos após anos de reestruturação, com avanço na geração de caixa, redução de custos e operação mais eficiente. Relatórios de bancos reforçaram a visão positiva ao elevarem recomendações e preços-alvo, sustentados pela expectativa de crescimento de receita e EBITDA nos próximos anos. O movimento também ganhou força com o rompimento de uma faixa técnica importante e pelo momento mais favorável ao setor de educação, que voltou ao radar dos investidores e ampliou o fluxo comprador nas ações.

Raízen (RAIZ4): (+27,16%)

A Raízen acumulou forte alta no mês ao voltar para o radar dos investidores com a percepção de uma possível virada financeira, impulsionada principalmente pela queda dos juros futuros e pela expectativa de reestruturação de capital. Mesmo com um desempenho operacional misto no ano-safra, marcado por pressão em Açúcar & Etanol devido a clima adverso e menor produtividade, a resiliência da divisão de combustíveis, com ganhos de eficiência e melhora de margens, ajudou a sustentar o movimento. A retomada do patamar acima de R$ 1,00 teve também efeito simbólico e técnico, ampliando o fluxo comprador e devolvendo visibilidade ao papel dentro do Ibovespa.

Petrobras (PETR3): (+24,01%)

As ações da Petrobras acumulam forte valorização no ano, superando com folga pares globais e o próprio mercado brasileiro, movimento puxado principalmente pela alta do petróleo no mercado internacional, pela elevada exposição da companhia ao segmento de exploração e produção e pelo fluxo expressivo de capital estrangeiro para a Bolsa. Relatórios de bancos destacam que boa parte dessa performance veio mais da escalada do Brent do que de uma reprecificação estrutural dos fundamentos, embora a estatal siga apoiada por produção em crescimento, reservas robustas e expectativa de dividendos ainda relevantes, mesmo em patamar mais normalizado. Ao mesmo tempo, o avanço das cotações reduziu a margem de segurança para novos aportes e trouxe para o centro do debate riscos como oscilações do petróleo, cenário eleitoral e volatilidade cambial, mantendo o papel atrativo pela geração de caixa e governança relativamente resiliente, mas cada vez mais sensível ao ambiente macroeconômico e político.

Vamos (VAMO3): (+23,53%)

As ações da Vamos figuraram entre as maiores altas do Ibovespa após a divulgação de uma prévia operacional sólida do quarto trimestre de 2025, que mostrou crescimento consistente de receita e melhora de indicadores operacionais. A companhia reportou avanço expressivo no faturamento tanto no trimestre quanto no acumulado do ano, com destaque para a divisão de locação que registrou receita recorde e expansão de margens, além do forte desempenho na venda de veículos e evolução gradual do segmento industrial. A melhora na taxa de ocupação da frota reforçou a percepção de maior eficiência operacional e sustentou o otimismo do mercado, levando investidores a anteciparem um balanço robusto. Mesmo com sinais técnicos posteriores de correção após o rali, o movimento refletiu principalmente a confiança na capacidade de crescimento e geração de resultados da companhia.

Prio (PRIO3): (+23,10%)

A Prio tem se destacado como a principal aposta entre as petroleiras brasileiras na visão do BTG Pactual, sustentada pela forte execução operacional e pela menor exposição a custos em reais, característica que amplia sua capacidade de capturar os ganhos da alta do petróleo mesmo em um cenário de valorização do câmbio. Com o Brent acumulando avanço relevante no ano e o real mais forte limitando parte do benefício para empresas com despesas domésticas elevadas, a companhia se diferencia por ter operações majoritariamente offshore, o que favorece a geração de caixa e o retorno ao acionista. Esse pano de fundo, somado ao crescimento consistente da produção, ao processo de desalavancagem e a catalisadores como o início do campo de Wahoo e otimizações em Peregrino, ajudaram a impulsionar as ações e mantê-las entre os movimentos mais fortes do mês e do setor na bolsa, mesmo com indicadores técnicos apontando um papel mais esticado no curto prazo.



Entre as principais quedas do mês, se destacaram:

Vivara (VIVA3):
(-15,22%)
A Vivara liderou as quedas em janeiro, em um início de ano marcado por elevada volatilidade. O movimento foi influenciado, sobretudo, por mudanças na alta gestão. No fim de 2025, a companhia anunciou a saída de Ícaro Borrello do cargo de CEO e de Bruno Kruel Denardin da diretoria de operações, substituídos por Thiago Lima Borges, como diretor-presidente, e Cassiano Lemos da Cunha, à frente das operações. As saídas inesperadas de executivos-chave entre o fim de dezembro de 2025 e o início de janeiro de 2026 geraram ruídos sobre a governança corporativa e a execução da estratégia de expansão de lojas. No curto prazo, o papel (VIVA3) também foi alvo de recomendações de venda em operações de day trade, em um ambiente de maior aversão a risco, no qual o mercado tem reduzido exposição a empresas de consumo discricionário.

Hapvida (HAPV3): (-11,74%)
As ações da Hapvida (HAPV3) caíram fortemente em janeiro, pressionadas por ruídos na gestão e preocupações com a dinâmica operacional. A companhia anunciou Alain Benvenuti, que havia deixado o cargo de COO semanas antes, como novo vice-presidente comercial, movimento recebido de forma mista pelo mercado diante das recentes mudanças no alto escalão. Segundo o Itaú BBA, a empresa perdeu 18 mil beneficiários em dezembro e 35 mil no trimestre, com maior impacto no segmento corporativo. Além disso, a Hapvida rescindiu o contrato com a Oncoclínicas para a compra do Hospital de Oncologia do Méier, no Rio de Janeiro, após não chegar a termos satisfatórios, o que reforçou o tom negativo sobre as ações.

Marfrig (MBRF3): (-6,56%)
O setor frigorífico recuou após o Ministério do Comércio da China confirmar a imposição de uma tarifa adicional de 55% sobre a carne bovina brasileira, aplicada quando os volumes exportados superarem as cotas estabelecidas. A medida pressionou as ações da Marfrig, que registraram forte queda. No caso da BRF, a companhia informou que a MBR Investimentos, sua subsidiária integral, concluiu a aquisição de 50% do capital social da Gelprime. O mercado, no entanto, segue atento à complexidade da fusão, aos custos de reestruturação e às disputas contratuais em curso com a Minerva envolvendo a venda de ativos no Uruguai.

C&A (CEAB3): (-6,50%)
A queda de CEAB3 foi puxada principalmente pela sinalização da própria C&A de desaceleração das vendas no quarto trimestre de 2025. Enquanto o mercado projetava crescimento entre 4% e 5%, a companhia indicou estabilidade próxima de zero, frustrando as expectativas. A empresa também destacou a antecipação de liquidações, uma Black Friday mais agressiva, menor fluxo em shoppings e aumento da concorrência no varejo de moda, fatores que pressionaram margens e rentabilidade. O cenário macroeconômico adverso, com Selic elevada, crédito mais caro e maior endividamento das famílias, reforçou a fraqueza do consumo no período. Diante desse contexto, o Citi reduziu o preço-alvo da ação de R$ 22 para R$ 18, mantendo recomendação de compra, mas com classificação de alto risco, enquanto o BTG Pactual cortou o preço-alvo de R$ 23 para R$ 19.

Auren (AURE3): (-5,14%)

A Auren teve desempenho negativo no primeiro mês do ano após o JP Morgan cortar o preço-alvo de AURE3 e adotar uma postura mais cautelosa para os próximos trimestres. O banco citou geração eólica fraca e elevado nível de curtailment como fatores de pressão sobre os resultados no curto e médio prazo. O preço-alvo foi reduzido de R$ 13,6 para R$ 12,3, com recomendação neutra mantida. A instituição projeta queda de 23% no Ebitda do 4T25 e recuo de 16% em 2026, refletindo cortes involuntários de energia e maior vulnerabilidade da companhia ao atual cenário de restrições da rede, dada sua elevada exposição a fontes renováveis.


Janeiro de 2026 registrou um desempenho excepcional do mercado brasileiro, sustentado principalmente pelo forte ingresso de capital estrangeiro e pelo elevado diferencial de juros. O avanço beneficiou ações de commodities, empresas com geração de caixa robusta e histórias de reestruturação, enquanto papéis mais sensíveis ao consumo, à governança e a questões operacionais tiveram desempenho inferior. À frente, a manutenção desse movimento dependerá da evolução do ambiente macroeconômico e da confirmação dos fundamentos das companhias.

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